[[legacy_image_353122]] Cidade de Confinante, mês de abril, há alguns anos. Fui ao banco para realizar umas transações, entre elas o pagamento de faturas. Naquele dia o banco estava quase vazio e um único funcionário designado para o caixa poderia atender a todos sem muita demora. Peguei uma senha e, logo após, sentei num dos lugares vagos. Percebi que um senhor, que estava ao meu lado, logo foi chamado e, dirigindo-se ao caixa, tentou explicar o que iria fazer. O funcionário não conseguia entender e pediu que ele procurasse ajuda com outro funcionário, que trabalhava no banco para auxiliar nessas situações. O velhinho voltou a sentar ao meu lado. Estava visivelmente confuso e não sabia o que fazer. Como eu só seria atendido após três pessoas que lá também esperavam, resolvi oferecer ajuda. Depois de alguns minutos, entendi que ele desejava fazer um depósito e não sabia como proceder. O funcionário já recomendara que ele poderia ser auxiliado no atendimento às pessoas que, habitualmente, apresentam dificuldades semelhantes, mas eu resolvi que iria auxiliá-lo. Com alguma paciência, fui perguntando e o senhor foi tentando explicar o que pretendia fazer. A situação não estava assim tão fácil. Num impulso, ele me entregou todos os papéis que trazia nas mãos e dois cheques, que esperava depositar. Assim, passo a passo, fui compreendendo e consegui colocar tudo em ordem para que aquele senhor, muito atrapalhado, conseguisse concretizar o que viera fazer no banco. “O que o senhor está fazendo não é correto!”, disse o funcionário, dirigindo-se a mim. As pessoas que esperavam atendimento concordaram com ele, com acenos de cabeça. Não dei importância à advertência, sequer aos intrometidos, e continuei a ajudar o velho homem. Percebi depois que não estava assim tão difícil, a partir da verificação dos papéis. Naquela época, era costume o preenchimento de uma guia de depósito, o que fui fazendo com base nos elementos que tinha nas mãos. Porém, ao escrever as informações indispensáveis à transação, a minha surpresa foi imensa. Ali, à minha frente, estava o senhor Atílio, que conheci em outros tempos, quando eu ainda era garoto. Ele fora uma figura extremamente importante na cidade e, até, a nível estadual, há quatro décadas. Hoje, quase ninguém o reconheceria, nem eu, caso não visse o nome dele no documento de identidade Terminado o meu auxílio, dirigi-me ao caixa e exigi, por causa da idade do senhor Atílio, que o depósito fosse feito de imediato. As pessoas e o funcionário olharam-me com maus olhos, mas eu levantei e apresentei tudo ao rapaz que, a contragosto, fez o depósito. Apanhei o recibo e entreguei ao idoso. Ele agradeceu, levantou e saiu, claudicante, a esboçar um sorriso tímido e conformado. “Vocês sabem quem é esse senhor que ajudei e acaba de sair? É Atílio Linhares! Foi prefeito de Confinante por três vezes e também deputado estadual. Quando eu era garoto, ele, ao andar pelas ruas, era cercado pelo povo! Distribuía cumprimentos, sorrisos, além de ouvir, de viva voz, inúmeros pedidos das pessoas que reivindicavam melhorias para os seus bairros. E as solicitações quase sempre eram atendidas”. O pessoal que estava no banco ouviu tudo com extrema indiferença. Saí do banco desolado. O tempo passou e eu soube que o senhor Atílio Linhares falecera. Na cidade, nenhuma lembrança do velho e esquecido político.