Lembro de ter lido há muitos anos uma entrevista de página inteira na Folha de S.Paulo. Era com o primeiro-ministro da Finlândia daquela época. Não me lembro exatamente do ano, mas foi no início dos anos 2000. A Finlândia já chamava atenção por um motivo simples: parecia fazer muita coisa certa. Em poucas décadas, deixou para trás a condição de economia periférica e se transformou em referência mundial em educação, tecnologia e qualidade de vida. Ainda hoje continua despertando admiração e inveja em muitos países. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que ficou na memória foi menos a entrevista em si e mais a impressão que ela me causou: o primeiro-ministro se definiu, sem cerimônia, como aquilo que de fato era, um funcionário público. E, com certeza, essa é uma definição difícil de contestar. Quem é remunerado com recursos do Estado, em tese, existe para servir à sociedade, não para desfilar vaidades. Ver o líder de uma das nações mais ricas e avançadas do planeta se equiparar a um servidor público produzia um contraste quase pedagógico. Na mesma época, o Brasil discutia reformas administrativas, eficiência do Estado e combate à corrupção. Diante disso, a postura finlandesa surgia como uma lição de humildade institucional. Tenho a percepção de que essa visão continua presente até hoje. Mais do que uma característica de governo, parece fazer parte da própria cultura dos povos nórdicos, onde o cargo público é visto como um dever e não um símbolo de status. O curioso é que, por aqui, muitos governantes não apenas ignoram essa postura como ainda gostam de tratá-la com certo desdém. Não é raro ouvir comentários do tipo: “Aqueles loirinhos de olhos claros não têm nada para nos ensinar.” A frase pode render aplausos em alguns ambientes, mas esbarra num detalhe inconveniente: os países nórdicos estão entre os mais desenvolvidos do mundo, lideram índices de inovação, investem fortemente em bem-estar social e figuram entre os campeões de igualdade de gênero. A Finlândia, em especial, aparece com frequência entre os países mais acolhedores para a comunidade LGBTQIA+, com altos níveis de aceitação social e respeito às diferenças. Na educação, segue entre os destaques internacionais, mostrando que excelência acadêmica, inclusão e qualidade de vida podem andar juntas, sem malabarismo retórico. No fim das contas, parece que países não prosperam porque seus governantes se julgam especiais. Prosperam quando quem ocupa o poder entende que está ali, antes de tudo, para servir. E, convenhamos, o Brasil talvez ganhasse bastante se tivesse menos “excelências” e mais servidores dispostos a servir.