(FreePik) O sociólogo Jessé de Souza publicou recentemente livro intitulado O Pobre de Direita, no qual busca responder à pergunta que intriga muita gente: por que a pregação da extrema direita encontra terreno fértil nos empobrecidos? Logo no início, ele deixa claro que as razões não são puramente econômicas. Cálculos racionais sobre perdas e ganhos na renda das pessoas não são o móvel do comportamento; a economia existe dentro de horizonte social e ético. Ou seja, as pessoas querem ser reconhecidas de maneira a obter autoestima e autoconfiança indispensáveis para a vida humana. Jair Bolsonaro explorou, desde quando foi candidato à Presidência em 2018, as vulnerabilidades da população. Ele, e seus seguidores, foram extremamente hábeis em trabalhar temas com grande impacto e apelo tanto para os pobres remediados, que ganham entre dois e cinco salários mínimos, e que representam 40% dos brasileiros, quanto para os realmente excluídos e perseguidos, que lutam para sobreviver, compreendendo mais 40% da população. A corrupção é um deles, notadamente para os remediados. Outros são a segurança, o ódio aos nordestinos (entre os pobres do Sul-Sudeste do País, por incrível que pareça), as minorias, e de forma mais ampla, a questão moral, com viés conservador. No grupo dos mais pobres pesa bastante a influência das religiões evangélicas, que oferecem exatamente o apoio moral aos desfavorecidos, insistindo na sua valorização e superação das dificuldades. Insisto na questão do reconhecimento social. Sem ele, Jessé Souza afirma, com exatidão, que não nos levantamos da cama pela manhã e somos assolados pela insegurança emocional e pelo desespero. Esse foi o mundo criado especialmente para os negros no Brasil, desprezados e perseguidos, vítimas do assédio policial e judicial, e que recebem autêntico bálsamo das denominações evangélicas, que passam, a partir daí, a controlar mentes e corações dos abandonados. O livro exagera, resvalando para a teoria conspiratória das elites – os ricos e endinheirados, com o suporte da classe média tradicional, que detém a hegemonia do capital cultural, planejando e agindo para explorar e manter a desigualdade –, mas é brilhante na análise dos remediados e pobres de verdade. 80% da população, eles definem eleições. E eles têm se inclinado, com grande lógica, para o discurso e a prática da extrema direita. Seu apego ao conservadorismo moral e a pauta de costumes são decorrência das feridas que sofrem, como a humilhação cotidiana. Compreender essa realidade é importante: não basta aumentar o salário mínimo, ampliar o Bolsa Família, isentar o imposto de renda dos remediados. Isso é importante, mas, sem quebrar o apartheid social e cultural, nada acontecerá. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna