Como bom santista, caminho na praia. Uns preferem a calçada; eu já prefiro o pé na água mesmo, na canela. Vez ou outra vejo uns peixinhos pequenos que chamo de peixes de canal. Nadam em bandos. Na minha infância, furávamos o fundo de uma lata, amarrávamos numa corda, prendíamos uns pedaços de pão velho lá dentro e, da ponte do canal, descíamos a lata na água. Ficávamos aguardando os peixinhos entrarem e, então, puxávamos a lata, ganhando um punhado deles. Pura diversão. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Na praia, são bem comuns perto do canal. Outro dia, porém, chamou-me a atenção o fato de vê-los em quantidade muito maior do que o normal — e longe do canal. Eu andava e não parava de ver bandos de peixes; se cada bando tinha uma centena, com certeza já estava na casa dos milhares o número de peixes que eu havia visto, algo incomum. Olhei em direção ao canal e vi uma garça, o que confirmou que não era ilusão de ótica. Ela estava ali porque havia peixes para sua refeição. No dia seguinte, fui ver se ainda estavam por ali. A princípio, não os vi e pensei que tivesse sido um fenômeno de apenas um dia. Notei, então, pequenos brilhos sobre o mar… hesitei, mas tudo indicava que eles estavam pulando para fora da água. Isso ocorre quando, de fato, são muitos. Vi alguns bandos, aparentemente em menor número do que no dia anterior, mas mais ao longe percebia o que me pareciam ser peixes saltando. Notei novamente a garça. A garça fixou o olhar em um ponto. Acompanhei de perto seu bote e, quando levantou o bico, um peixe o atravessava de lado a lado, ainda resistindo. Mas a lei da natureza foi mais forte e logo ele havia descido goela abaixo da garça. Olhei para os lados, checando se mais alguém havia visto, mas ninguém notara. Pensei em parar alguém, comentar, mas seria estranho. Pouco depois, vi dois amigos, um casal homoafetivo. Acenei e me dirigi a eles, pensando em contar do peixe, da garça etc., mas acabei desistindo: iria atrapalhar a caminhada matinal deles. Agradeci uma indicação de série que ele havia feito e me despedi. Então resolvi escrever, porque escrevo assim, por transbordamento — algo que vi, li ou pensei e que precisa ser compartilhado, ao menos com o papel ou com o computador. Quem sabe, um dia, alguém lerá, e aquela cena dos peixes e da garça voltará a acontecer na mente de um leitor que não conheço. Lembrei de uma frase que li em algum lugar: “o poeta é aquele que vê, aquilo que os outros de tanto ver, já não veem mais!”