Após assistir ao filme A Odisseia, fiquei tentada a ler os poemas de Homero. Compostos há aproximadamente 2,7 mil anos, eles ainda despertam o interesse dos leitores por tratarem de temas inerentes à alma humana. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A própria figura de Ulisses é fascinante, expondo qualidades e defeitos que nos aproximam de nossa própria realidade. Logo no Primeiro Canto, Zeus se refere a ele como o homem astuto que tanto vagueou no mar e por tantos sofrimentos passou com seus companheiros. Na ocasião, o líder do Olimpo apontou aos outros deuses a injustiça de os mortais os acusarem por suas desgraças. Para Zeus, essas tragédias provêm da própria loucura humana. De fato, tanto Ulisses como seus companheiros cometeram erros graves que despertaram a ira divina. No caso de Ulisses, ordenar o desembarque na Ilha dos Ciclopes para saquear comida violou as leis sagradas da hospitalidade. A situação piorou quando ele embebedou propositalmente Polifemo, filho de Poseidon, para tirar proveito de sua vulnerabilidade e cegá-lo com uma estaca em brasa. A tripulação também agiu com insubordinação em vários momentos cruciais da viagem, enganando o capitão e afrontando as divindades. Em suas rebeliões, abateram o gado sagrado de Hélio, abriram o Saco de Ventos de Éolo e ignoraram as ordens de partir da Ilha dos Cicones, preferindo banquetear na praia com a carne roubada. Depois de tanta indisciplina, apenas Ulisses sobreviveu à punição dos deuses. Contudo, acabou capturado pela deusa Calipso e condenado a viver em uma ilha paradisíaca, livre de perigos, trabalho ou doenças. Se lá permanecesse, ganharia a imortalidade e a eterna juventude. Mas, o poema mostra que o paraíso nem sempre é o que desejamos. Ulisses não tinha o estímulo dos desafios, dos riscos e da instabilidade e caiu na letargia e na depressão. Cercado por praias deslumbrantes e por uma divindade maravilhosa, ele percebeu que a falta de problemas anula o propósito da vida. Tinha saudade da vida desafiadora de um simples mortal. A pergunta que a obra desperta é se o homem suporta a perfeição. Será que conseguiríamos viver no paraíso?