Meu pai era um homem comum — como homem, como pai, como marido —, constituído de erros e acertos. Não era o tipo clichê, que uma visão fantasiosa da paternidade quer perfeito, o herói impecável das frases de cartões de floricultura. Ele foi um bom pai, mas tinha seus defeitos. Às vezes era um tanto rude, autoritário, e bebia, bebia muito. Não posso julgá-lo; ele não teve uma vida fácil. Veio da Bahia para São Paulo aos 17 anos, sem recursos, e atravessou a vida batalhando. Mas, apesar de todas as dificuldades, tinha um dom poético. Compunha músicas de cabeça, sem escrevê-las, e cantava com os amigos em rodas de botecos simples. Muitos acreditam que pai bom é pai sempre bonzinho, que trata os filhos somente com mimos e carícias. Mas o pai de verdade é o que forma filhos para enfrentar as adversidades da vida. Um grande exemplo é Richard Williams, que começou a treinar as filhas Venus e Serena Williams desde muito pequenas. Criou um plano rígido para transformar as filhas em campeãs. Foi criticado por muitos, que achavam exagerado o seu método. Mas graças a ele as filhas venceram num esporte historicamente elitista e tornaram-se campeãs, mesmo em meio ao racismo que sofriam. Longe de causar desamor, essa dureza na infância gerou orgulho do pai que tinham. Em entrevista oficial durante a promoção do filme biográfico sobre a vida de seu pai, Venus Williams declarou: “Ele é um homem que estava à frente do seu tempo. Ele mudou o esporte. Ele escreveu um livro sobre como jogar tênis e como criar filhos. Não existe ninguém como ele”. A conexão entre pai e filho transcende a presença física; ela possui uma força inerente que habita um campo de forças invisíveis. Mesmo quando tentam anular por completo o contato paterno, sua influência íntima e silenciosa permanecerá. Lembremos da famosa matemática Ada Lovelace, nascida Augusta Ada Byron (a primeira programadora de computadores da história). O poeta Lord Byron separou-se da mãe de Ada antes de ela completar um ano. A mãe de Ada, que era matemática, deu intencionalmente à filha uma educação intensa em matemática e ciências, para que ela não tivesse nada do lado poético do pai, transmitindo a ideia de que Ada deveria evitar qualquer semelhança com o pai. Lord Byron morreu na Grécia quando Ada tinha apenas 8 anos. Mesmo sem conhecê-lo, Ada herdou o lado artístico do pai e chamava seu estilo de trabalho de “ciência poética”. Ela morreu aos 36 anos, mesma idade em que seu pai faleceu; e a pedido dela, seu corpo foi sepultado ao lado de Lord Byron. Querer ver no pai sempre um herói, um homem perfeito, é um grande erro que pode até nos afastar dele. Sem ele não existiríamos e mesmo quando erram, provavelmente nos amam. Meu pai não foi exatamente um exemplo, mas sou grato por ele ter me legado sua veia poética e sua insistência em seguir adiante, apesar dos muitos obstáculos. *Servidor estadual, escritor e pós-graduado em Literatura Contemporânea