(Taba Benedicto/ Estadão Conteúdo) No último dia 20, Santos testemunhou mais que um evento teatral; viveu-se um rito de transcendência. Foi um daqueles raros instantes em que o relógio do mundo parece suspender os ponteiros para deixar a alma flutuar acima do cotidiano. Ali, entre o abrir das cortinas e o apagar das luzes no Teatro do Sesc, o ato de transcender deixou de ser um conceito abstrato para se tornar o sentimento vivo de que os corações presentes deram um passo além do corpo, alcançando uma elevação que só a arte pura consegue tocar. No palco, Fernanda Montenegro — que aos 96 anos carrega em si a própria memória do tempo — deu vida à leitura dramática “Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir”. A atuação da veterana foi uma dança de silêncios, onde a economia de cada gesto revelava a imensidão de uma existência. Sozinha sob os refletores, ela encarnou a voz de Beauvoir para narrar não apenas o fim, mas a essência de uma jornada compartilhada com Jean-Paul Sartre. A plateia absorvia cada sílaba como se o tempo tivesse decidido parar para escutar. Com uma entonação que oscilava entre o afeto e a crueza intelectual, Fernanda trouxe à luz a arquitetura daquele relacionamento: uma união que desafiou convenções ao priorizar a autonomia. Nas palavras da atriz, vislumbramos o pacto de transparência de um casal que, embora unido por um “amor necessário”, permitia-se as derivas dos “amores contingentes”. A lição de Simone se revelava em poesia clara: o Amor Necessário é o alicerce da casa, o chão firme e o teto que protege da tempestade. Já os Amores Contingentes são como as brisas que entram pelas janelas abertas; afetos que trazem novos ares sem retirar um tijolo sequer da construção principal. É a liberdade de habitar novos afetos sem jamais perder o norte do amor da vida. Era o existencialismo na prática: a coragem de assumir que o destino não está escrito nas estrelas, mas na palma de nossas mãos. Através de A Cerimônia do Adeus, compreendeu-se como Simone e Sartre preservaram suas independências, sem que isso diminuísse a centralidade que um exercia na vida do outro. Um exercício de honestidade brutal e ternura infinita. O silêncio da plateia, durante 75 minutos, era quase sagrado. No teatro, templo cultural de nossa cidade, a voz da atriz preencheu cada fresta, guiando-nos por reflexões sobre o tempo, o desapego e a coragem de ser livre. Por fim, cabe louvar a gestão do Sesc Santos. O zelo na preservação deste espaço o consagra como um refúgio indispensável. Sustentar tamanha excelência é um compromisso com a dignidade da cultura: é garantir ao povo o direito de, por um instante, suspender o chão do cotidiano e respirar o ar puro da liberdade. Jose Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado, mestre em Direito Ambiental, membro das academias de Letras de Praia Grande e de São Vicente, do Conselho de Minerva da UFRJ e associado do Rotary Club Santos Oeste.