Pilhas de livros espalhados pela casa à espera de habitar o lugar apropriado, para mim, o de menor distância entre o olhar e as mãos ávidas. As mudanças de casa, a primeira aos 16 anos e as últimas após os 60, são fantasmas a vagar pela memória na caminhada solitária, sem rumo, em busca do não-lugar. Rompo barreiras, folheando alfarrábios... Pontes voláteis transportam-me ao desconhecido. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! As ruas de sempre são outras. Sob os ipês roxos, sombras de passos vacilantes no tapete de pétalas, misturando tons... Meu pensamento destoa dessa harmonia matinal nas alamedas. A roseira no jardim de um prédio traz à lembrança a casa onde nasci, tão longe deste bairro emparedado por prédios, que proliferam feito um formigueiro... Erguidos lado a lado, quase grudados, como se fossem casas de cupins, ao longo de viagens por terras paulistas. Todo paulistano é paulista, mas nem todo paulista é paulistano. Ser paulista! Em brasão e em pergaminho / É ser traído e pelejar sozinho / É ser vencido, mas cair de pé! Martins Fontes reverbera e retruco, todo poeta é escritor, mas nem todo escritor é poeta, ó Zezinho! Nem todo guerreiro é herói. Quantos vão à luta porque foram convocados, não por vontade própria. Faço-me íntima do poeta santista e volto à casa, na verdade um apartamento numa torre que se deixa engolir por outras, ainda mais altas, com mais de cem andares! Precisaria se nela fosse morar, em caso de incêndio, personificar Rapunzel, deixando o cabelo crescer além dos pés para ajeitá-los em tranças longas, e sã e salva, lançar-me à calçada. Ilusão... Ora direis ouvir estrelas, lembrando Olavo Bilac. É preciso sonhar para sermos salvos. O mundo flutua enquanto caminhamos. Atingimos espaços, esferas além da órbita real. Sou o que não sou? Outro e o mesmo? Duplicados, multifacetados, continuamos na estrada. Pelé, o Rei do Futebol, no filme A Marcha é artista, interpretando Chico Bondade, que ao lado do comendador Boaventura, de 1887 a 1888, em plena campanha abolicionista, tem a missão que exige longa e cuidadosa dissimulação: infiltrar-se nos lugares mais diversos para doutrinar os escravos na fuga em massa das senzalas para terras, onde fosse mais fácil conseguir liberdade. Bilac, poeta e jornalista, também foi um ardoroso defensor do movimento abolicionista no Brasil. Através de seus textos, discursos e de sua influência na imprensa, lutou ativamente pelo fim da escravidão ao lado de outras grandes figuras da época, como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa. É preciso arriscar para sermos salvos! Esquiva de mim, quem sabe, retorno à casa. Desconheço o caminho. O mesmo? Outro? À espera do elevador, passos no hall. Boa tarde! Boa tarde! E sorrimos alheios às divagações, quem sabe tentando deixar o mundo flutuante do lado de fora.