(Pixabay) A percepção que temos da realidade é frequentemente prejudicada pela facilidade com que aceitamos versões padronizadas, simplificadas, de fatos e acontecimentos sociais complexos. Nesse processo de acomodação, de facilitação, acabamos assimilando preconceitos, estereótipos que nossa cultura nos entrega prontos, reduzindo drasticamente as possibilidades de real conhecimento de fatos e pessoas. Nem sempre nos dispomos à “aventura da percepção” de que falava Ecléa Bosi, escritora e psicóloga social. “Somos insensíveis e desatentos às coisas que povoam nosso mundo e, por isso, sofremos de uma perda, de um empobrecimento que nos faz capitular e enxergar através de mediações impostas”. Os acontecimentos que ocorrem próximos de nós ou em outros cantos do universo nos chegam diariamente através de relatos feitos pelos mais diversos meios de divulgação. Relatos que vêm impregnados de valores e estereótipos resultantes da cultura e das versões de quem os propaga. Relatos que selecionam fatos e pessoas com base em critérios pessoais, técnico-profissionais, de interesse do poder de plantão e outros mais. Recebemos, portanto, um mundo editado, com informações e imagens que passam a compor nossa visão de mundo. É verdade que as impressões iniciais sempre podem ser corrigidas, a partir de novos conhecimentos, novas experiências, mas a tendência que prevalece é a do “repouso no estereótipo”. Repouso que intercepta a informação melhor apurada, no caminho para a consciência. Nosso espaço no mundo é pequeno e nossa experiência, limitada. Conhecemos algumas pessoas, algumas coisas, alguns pedaços de paisagens, de ruas, alguns livros. Presenciamos alguns fatos, não a maioria sobre os quais lemos ou conversamos. Valemo-nos, então, das informações de quem os vivenciou ou assistiu. E é essa confiança social que vai alimentar o nosso pensamento e o nosso discurso cotidiano. Ocorre que, quando alguém nos descreve ou interpreta uma situação, um fato, esse procedimento não fica restrito apenas à categorização de objetos materiais, mas inclui também valores. Conceitos e estereótipos são transportados pelas palavras e se apoderam de nossa vida mental, levando-nos a primeiro definir e depois ver, ao invés de primeiro ver e depois definir. Estamos sempre propensos a nos manifestarmos de forma preconceituosa, pela nossa própria formação social. E essa influência do meio social torna-se mais grave à medida que deixamos as informações e as imagens invadirem nossa vida mental, sem disposição para corrigir as impressões iniciais. Tentamos, muitas vezes, garantir o êxito de nossas ações e facilitar a aceitação por determinados grupos, cedendo à opinião que nos chega, deixando de elaborar nossa própria síntese racional, baseada em dados verificados. Confundimos conformidade e conformismo, esquecendo-nos de que o estereótipo tem uma multiplicidade de faces. Romper com essa situação, acabando com a simplificação e a generalização na nossa visão de mundo, exige que comecemos a recusar a maior parte daquilo que foi estabelecido sem a nossa concordância. Que deixemos de aceitar, passivamente, orientações que nos chegam através de estereótipos e normas, sem questionamos e apurações necessárias. Enfim, não podemos cair no conformismo e deixarmos de ser, efetivamente, sujeitos. *Taís Curi. Escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos