(Matheus Tagé/AT/Arquivo) Flávio Viegas Amoreira moldou-se para seu destino cultural dedicando-se dia e noite à literatura e à arte. Ele chega hoje aos 60 anos como um boêmio de incansável produção literária. Nele, a tendência intelectual é inata, atemporal e genética. Trata-se de um doce iconoclasta. O poeta Gonçalves Dias cantou a saudade. Amoreira canta liricamente Santos, seu amor inabalável. Na sua ilha encantada, o grande destaque é para o mar. Uma de suas maiores paixões. Só mesmo alguém com sua paciência, conhecimento histórico e vivência pessoal consegue descrever a cidade amada em seus múltiplos aspectos. Na sua visão, Santos é testemunha de caravelas, pouso de piratas e corsários, rota de bravos imigrantes. Também de jesuítas, fidalgos, poetas malditos. Abrigo de degradados e de libertadores. Das mulheres de vida airada da Boca do Lixo. E de catraias, balsas e cargueiros. Na sua lembrança não faltam a maresia, o vento noroeste, a sensualidade. Tempestades trópicas, fantasmas nos becos, tabernas de outrora. E ruínas. Antros e templos, chalés e sobrados. O refinamento fecha, com pitadas douradas, as citações perfeitas. Santos e o jazz são almas gêmeas. E por mais que se tente não é possível explicá-las. Portador de toda a ancestral erudição da humanidade, Flávio afirma-se como um autor do século 21 - e sua obra acompanha a natureza disruptiva destes tempos de tão velozes quão feéricas transformações. Seja em verso ou em prosa, ele não vacila em experimentar formas diferentes de linguagem que desafiam a sintaxe tradicional, em inovar conteúdos e em implodir a estática classificação de gêneros. Volumosa a sua produção artística em cerca de duas décadas, reunida em 17 livros, o primeiro lançado em 2002 e o mais recente neste início de 2025. Embora artífice de todos os gêneros literários, é na poesia que Flávio transmite da maneira mais sublime a apreensão da realidade por sua sensibilidade de bardo. Não é uma poesia acadêmica, nem de fácil compreensão. Nela o leitor não encontrará versos de métrica perfeita e rimas engajadas. Deparar-se-á apenas com pensamentos profundos envoltos em linguagem lírica que convocam à reflexão - poucas palavras para muita meditação. Nas palavras desse vate, “poema é o que se escreve, poesia o que se sente”, pois segundo ele “o prazer da poesia é teu entendimento único”. Sintética definição do cerne da obra desse trovador santense. Salve Flávio Viegas Amoreira, herdeiro de Martins Fontes e Vicente de Carvalho. *Carlos Conde. Jornalista Luiz Rodrigues Corvo. Advogado