[[legacy_image_299896]] Apressado como sempre, dirigia meu carro rumo a uma consulta médica de rotina. O trânsito era intenso e, súbito, o semáforo fechou à minha frente. Esgueirando-se entre os veículos parados vejo um menino magro e franzino, que oferece, com certa timidez, balas aos motoristas. Ele não insiste nem se aproxima muito dos vidros. Não tem o talento para vender, seus olhos não demonstram emoção. Não há a tentativa de comover ou seduzir quem ali está à espera que o sinal mude para o verde. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Não sei quem é, muito menos seu nome. Posso, porém, adivinhar a história: família muito pobre, morando sabe Deus em qual periferia, levado pela vida e pelas circunstâncias a fazer algo que não gosta, qual seja vender balas nos semáforos, em busca de alguns poucos reais que talvez façam a diferença no orçamento familiar. Pode ser também vítima: a criança explorada por algum adulto, que a força a realizar aquela tarefa. Chovia. A tarde era fria e lá estava o menino, tentando oferecer, com evidente dificuldade, as balas. Pensei que daquele jeito provavelmente ele não conseguiria êxito algum, diferentemente daqueles que se expõem, seja com placas suplicantes de ajuda, seja com mirabolantes piruetas e malabarismos que, no final das contas, chamam a atenção. Ele passou ao lado do meu carro. Não tive tempo ou oportunidade de agradecer, e de dizer que não queria comprar as balas. Seu jeito despretensioso, mas alheio a tudo e a todos, impressionou-me. Por um instante fechei os olhos e vi ali meu neto Otávio, que tem a mesma idade e até certa semelhança física com o menino vendedor das balas. Certamente ele teria a mesma dificuldade para abordar os motoristas, e estaria ali, sofrendo muito. O destino foi diferente: enquanto um tem oportunidades para estudar, aprender e amadurecer no ritmo normal, com o apoio da família, descobrindo o mundo e podendo realizar sonhos e projetos, o outro está ali, na rua e na chuva, tentando apenas sobreviver, carente de oportunidades, levando o dia a dia como pode. Segui meu caminho, e o menino não saía da minha cabeça. Fui à consulta médica e, ao final, decidi voltar àquele cruzamento. Normalmente não carrego dinheiro na carteira, já que são tempos de Pix e cartões. Mas nesse dia eu tinha uma nota de R\$ 50,00. Resolvi que, se encontrasse novamente o menino, daria esse dinheiro a ele sem receber nada em troca. Eu diria a ele: vá para casa, é tarde, você já cumpriu sua tarefa. Pelo menos hoje algum dinheiro você vai conseguir, e talvez traga alguma alegria à sua família. Retornei ao local. Já era escuro, eu demorara bastante no consultório médico. Nada, nem sinal do menino das balas. Será que alguém fez o que eu pretendia fazer? Ou será que o dia foi melhor, que a chuva e o frio tocaram os corações dos motoristas e vários compraram as tais balas e assim a jornada acabou mais cedo? Nunca vou saber. Nem sei se vou encontrar novamente este menino. Outros, infelizmente, continuam nas ruas. E nós seguimos a nossa rotina, insensíveis. Alguns minutos depois já esquecemos e vamos em frente. Sei que a solução não é dar esmolas; isso não vai acabar o drama. Mas não é possível ficar indiferente a tanta dor, sofrimento, miséria. Um dia, quem sabe, tudo será diferente. Assim espero, e faço o que posso para que isso, de fato, aconteça.