Outro dia me deparei com um militante que, tomado por uma convicção quase religiosa, decretou sem hesitar: “Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve!” Confesso que não me surpreendi. A admiração, quando se transforma em paixão política, costuma produzir um efeito curioso: ela suaviza tropeços, releva erros e, em alguns casos, funciona quase como aqueles filtros de redes sociais que escondem rugas, manchas e qualquer imperfeição inconveniente. Até aí, tudo bem. Cada um tem o direito de admirar quem quiser. O que me intriga é quando a admiração exige que os fatos sejam deixados de lado, mesmo quando eles vêm de estudos produzidos por algumas das instituições mais respeitadas do mundo. Então vamos ao exercício mais simples e menos emocional possível: comparar. Em 2002, o Brasil ocupava a 73ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Hoje, está na 84ª. No ranking de PIB per capita ajustado pelo poder de compra, saímos da 60ª colocação para a 75ª. Em competitividade global, despencamos da 35ª para a 70ª posição. E não para por aí. Seria possível listar diversos outros indicadores que seguiram trajetória semelhante. Mas vale destacar mais um deles, talvez o mais simbólico: o Índice de Percepção da Corrupção. Nesse caso, o Brasil piorou da 45ª posição para a 107ª. Aí surge uma dúvida inevitável: ficamos todos mais desconfiados ou a corrupção realmente passou a ocupar um espaço maior no imaginário e na realidade do país? Então, se tantos países conseguiram avançar mais rápido que o Brasil nas últimas décadas, será que não faz sentido reconhecer que seus governantes, em algum momento, foram melhores? Não se trata de pedir que alguém abandone suas convicções ou troque de ídolo. A democracia permite admiração, crítica e até uma certa teimosia de estimação. Mas, o que parece faltar, muitas vezes, é apenas um pouco mais de disposição para olhar os fatos sem a necessidade de defendê-los ou combatê-los antes mesmo de conhecê-los. Quem admira o atual presidente tem todo o direito de continuar admirando. Talvez valha a pena trocar a certeza absoluta por uma análise mais cuidadosa. Porque afirmar que alguém foi “o melhor presidente que o Brasil já teve” exige algo mais sólido do que entusiasmo. Exige evidências. E, gostemos ou não delas, as evidências costumam ter um hábito inconveniente: elas insistem em aparecer quando fazemos comparações. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor