Em um final de semana chuvoso e um tanto tristonho, decidi que a melhor forma de espantar o tédio seria mergulhar em um livro singular: um Romance Gótico Clássico. Queria algo muito além do trivial, um cenário completamente distante da minha realidade. Encontrei exatamente o que procurava em O Romance da Floresta, obra publicada por Ann Radcliffe em 1791. A premissa tinha tudo o que o gênero exige: uma família em fuga que encontra refúgio em uma abadia abandonada, repleta de mistérios e cercada por uma densa e sufocante floresta. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O título e a autora prometiam bons momentos de leitura. Logo de início, o enredo entregava os ingredientes perfeitos daquela tradição literária: muitos segredos, a figura de um vilão perverso, a delicadeza de uma linda moça vulnerável e inúmeras atribulações que são adicionadas com o desenrolar dos fatos. No entanto, toda viagem tem seus percalços. Quando cheguei à metade do livro, confesso que me senti um pouco cansada do rigor e dos detalhes excessivos. Peguei-me perguntando o que, afinal, aquela leitura setecentista estava acrescentando à minha vida. O clima magnético de suspense, a sensibilidade poética de algumas cenas e a tensão pelo perigo iminente sabotaram minha tentativa de abandono. Eu estava irremediavelmente presa. O que mais me marcou nessa experiência foi a personalidade da jovem protagonista, Adeline. Sua docilidade extrema, associada a uma fragilidade paralisante e a uma condição de total dependência dos homens ao seu redor, causou-me um profundo desconforto. Creio que, na virada do século 18 para o 19, a feminilidade idealizada se confundia com a debilidade e a submissão. Em Adeline, o belo rosto melancólico, suplicando humildemente pela proteção de um salvador, se mostrou um ponto fundamental da sedução feminina. Essa fraqueza se mostrava uma qualidade infalível para atrair um séquito de apaixonados prontos para servi-la e defendê-la. Analisando sob o olhar de hoje, esse perfil virtuoso moldado pela fragilidade e pelo medo não parece encontrar mais espaço no imaginário feminino contemporâneo. A ideia de ser salva pelo “príncipe encantado” não me parece aplicável ao cotidiano das mulheres. Mesmo pelo lado masculino, o desejo de sacrificar a própria vida por um amor platônico parece bastante deslocado da realidade. Será que esse desejo arcaico de ser protegida e resgatada das garras do Mal foi totalmente extinto, ou ele ainda habita, silencioso, a profundidade dos sonhos das moças do século 21? Será que a mulher desprotegida ainda exerce seu poder de atração sobre as mentes masculinas? A oposição entre a vulnerabilidade feminina e o poder masculino ainda é um elemento desejado?