A política brasileira tem dessas ironias. Os mesmos congressistas que dizem representar o povo parecem incomodados quando o povo resolve votar em alguém com entusiasmo demais. Nikolas Ferreira (3.119.318 votos, ajudando 13 candidatos), Lucas Pavanato (3.038.438 votos, levando mais 7) e Erika Hilton (1.596.472 votos, ajudando um candidato), cada um com suas bandeiras e milhões de votos, expõem uma contradição incômoda do sistema eleitoral. O problema, para muita gente em Brasília, não é a falta de representatividade. É o excesso de votos concentrado em determinadas figuras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No sistema proporcional brasileiro, o eleitor vota em um candidato, mas sua escolha também contribui para a votação do partido. Assim, candidatos com votações extraordinárias podem ajudar outros integrantes da mesma legenda a conquistar cadeiras na Câmara dos Deputados, mesmo que tenham recebido muito menos votos individualmente. A distribuição, porém, depende de regras específicas, incluindo quocientes eleitorais e partidários e critérios legais para o preenchimento das vagas. Enéas Carneiro, Tiririca, Celso Russomanno, Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira entraram para a história com votações expressivas. Agora, a discussão sobre mudanças no sistema eleitoral reacende uma pergunta incômoda. Os parlamentares querem aperfeiçoar a representação política ou reduzir o poder de candidatos capazes de arrastar multidões? A proposta de combinar representantes eleitos em distritos com cadeiras preenchidas por votação de livre escolha pode ser apresentada como modernização. Mas nenhuma reforma é neutra. Dependendo de seu desenho, poderá aproximar o eleitor de seu representante ou fortalecer as estruturas partidárias e seus dirigentes. O fenômeno dos candidatos de votação gigantesca revela uma verdade desconfortável. Milhões de votos em um nome podem ampliar a bancada de um partido e favorecer candidatos com votação individual muito menor. Para alguns, isso é uma distorção. Para outros, é o princípio da representação proporcional funcionando como previsto. A democracia, porém, tem uma característica que irrita os políticos profissionais. Ela não pede licença. Às vezes, transforma militantes, celebridades e influenciadores em protagonistas nacionais. O eleitor pode acertar ou errar, mas tem o direito de escolher. Se a mudança melhorar a democracia, merece ser discutida. Se servir apenas para proteger os ocupantes do poder contra a força imprevisível das urnas, terá outro nome, defesa de interesses próprios. Afinal, quando políticos querem mudar as regras depois que determinados candidatos conquistam milhões de votos, cabe perguntar: pretendem proteger a democracia ou proteger a si mesmos?