(Pixabay) Na edição deste mês da Revista Piauí, o repórter Jamil Chade conta a história do fechamento da única livraria num raio de mil quilômetros na Amazônia. A livraria Xingu, em Altamira, era a prole exclusiva de um homem que trabalhava solitariamente pelo incentivo à cultura literária em um espaço que corresponde ao tamanho de um país. Moisés, é o pai da Xingu e o livreiro idealista que narrou para Chade o prefácio de linhas esperançosas do início desse romance e a tristeza profunda com o último capítulo. Senti muito por ele. E fiquei ainda mais comovida com a história e com o sonho interrompido do livreiro, pois li a reportagem justamente no domingo, 3/11, em Santos — uma cidade tão conservadora quanto Altamira — no dia em que se encerrava a 16ª edição da Tarrafa Literária, o festival internacional de literatura que nasceu da mente e da paixão do livreiro que o santista conhece: José Luiz Tahan. A história curiosa do também editor, escritor e produtor cultural começa aos 18 anos, na tentativa insistente de um jovem de classe média baixa na busca de emprego. Tahan bateu na porta de muitos estabelecimentos e de uma maneira cômica - e eu diria até esotérica - por uma falta de comunicação, a oportunidade apareceu numa livraria, a Iporanga, que depois fechou as portas em 2004. Mas essa história, se você, leitor, ainda não conhece, então deixo para o Zé te contar nas palavras dele mesmo, na obra ‘Um Intrépido Livreiro nos Trópicos’. Avanço alguns capítulos aqui para dizer que aquele jovem que se tornou livreiro, depois sócio, proprietário e todos os outros títulos que já apontei, é, sobretudo, uma voz apaixonada, que amplifica a importância da cultura na nossa cidade porque acredita verdadeiramente nessa agenda. Não vou trajar esse livreiro com a roupa do herói da resistência porque conheço o profundo desapreço dele por essa expressão. Mas num país que prefere transferir audiência a figuras vazias de cidadania, consciência e conhecimento, engordando suas contas bancárias e as tornando celebridades, assistir à Tarrafa lotando o Teatro Guarany em mais uma edição — e agora também ocupando a Praça dos Andradas e a temperatura democrática das ruas do Centro Histórico — é de restaurar o ânimo. O sucesso comprova a imensa persistência do livreiro idealizador, que dá de ombros para observações desalentadoras como: “ninguém lê no Brasil, meu caro”. Em uma curadoria inteiramente desenhada pelo livreiro intrépido, como de costume, autores e público travaram conversas muito enriquecedoras sobre direito à cidade, história do Brasil, mudanças climáticas, literatura e suas diversas manifestações, jornalismo e suas grandes complexidades, finitude, masculinidade e mais uma lista extensa de longas e profundas provocações que acendem nossas mentes. Comecei o meu domingo triste com o final do capítulo de Moisés e da Xingu em Altamira mas encerrei o dia esperançosa com o desenrolar desse romance de Tahan, da Tarrafa, da Realejo Livros e de todos os corações e mentes envolvidos nessa agenda. Como bem apontaram todos os autores e mediadores nos quatro dias do festival: As pessoas que apreciam a escrita, a literatura e a cultura agradecem sempre (e talvez ele me deteste muito aqui mas eu já estou encerrando), a essa figura resistente. O livreiro que a gente conhece. José Luiz Tahan. *Luiza Schiff. Jornalista