(Marcelo Camargo/Agência Brasil) Por esses dias tive uma emoção gigante. Dessas raras e para poucos. Vi meus jovens aprendizes médicos partindo. E a alegria foi perceber que a grande maioria partiu bem para iniciar as suas vidas. Ser médico não é fácil. Nunca foi. E se antes era a falta da tecnologia que tornava grande parte complicado, hoje, talvez seja o excesso um complicador. É por isso que sempre tentei transmitir, para além do conhecimento, postura e valores morais. Sabendo o essencial e com o recurso do saber digital, é possível clinicar. Mas sem compreender o que é a arte do cuidar nos aspectos misteriosos da relação médico-paciente, e por que não, médico-família do paciente, falharemos. Dessa turma que partiu, uma coisa eu tinha certo. Eram alunos de coragem. E disse isso a eles lá atrás, há quase seis anos, na cerimônia em que simbolicamente recebiam um jaleco, aquele nosso avental branco, como marco do início da sua jornada. Constituíram a primeira turma de uma escola médica. E que é localizada na cidade de Cubatão, tão injustamente estigmatizada. Mas ao longo dos anos transformaram-se em profundos conhecedores do desafio humano, e de que, como canta Milton Nascimento acerca de o artista ter que ir aonde o povo está, eles também, como médicos. Fico ainda muito tocado porque conseguimos o intento da faculdade aberta em um local desafiador. Muitos fincaram raízes nos postos de saúde e prontos-socorros da cidade e da região e vários, quase na totalidade das vagas disponibilizadas, escolheram seguir conosco na residência médica. Com isso, aprenderão e servirão um pouco mais ao povo da cidade. Os que se seguem a essa primeira turma pioneira não são diferentes. Ou são, talvez mais jovens. Porque agora que foi desbravada, a faculdade virou mais desejo do que desafio. Mas os calouros da primeira turma também estavam na festa prestigiando seus veteranos e, agora, tutores. E já dão sequência nos projetos assistenciais, de pesquisa e sociais. Onde, quando e como tiver que ser. Porque já sabem que no centro está o paciente, razão de ser e protagonista da vida do médico. E de todas as vagas para residência médica, as mais numerosas e grandemente disputadas foram as de Medicina da Família e Comunidade. Prova de que estamos formando, como sempre digo, não os melhores médicos, mas os necessários. E a eles desejo sucesso, que em minha definição é todo dia ser útil a quem de nós precisou. E não posso encerrar sem expressar um sentimento talvez menos nobre, o orgulho. Orgulho de ver que muitos foram ainda mais longe, aprovados em provas complexas e tornando-se residentes em hospitais e universidades dos melhores no Brasil. Então o baile que me inspirou a escrever esse texto foi também um adeus aos que partem e uma renovação do compromisso com o ensinar aos que seguirão por aqui, mas também com turma um, porque para sempre serei professor e eles, os meus aprendizes. E que emoção eu sinto por conta disso. Vão, façam o que precisa ser feito. Obrigado por confiar. *Evaldo Stanislau - Médico e professor universitário