(Paulo Pinto/Agencia Brasil) Em julho, quando a notícia da prisão do empresário e político haitiano Reginald Boulos começou a circular com força nas redes sociais, as publicações se espalharam rápido, mas ofereciam pouco além da afirmação básica. Sem detalhes. Sem confirmação. Apenas informação suficiente para produzir mais perguntas do que respostas. No The Haitian Times, a redação confirmou a prisão, reuniu os fatos e publicou um relato detalhado. Quando compartilhei a reportagem nas redes sociais, uma resposta me fez parar. “Obrigado pela atualização. Estávamos esperando o The Haitian Times confirmar essa notícia”. A leitora já tinha a informação. O que ela não sabia era se podia acreditar nela. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa distinção merece reflexão no Dia Mundial do Jornalismo, quando organizações de notícias de todo o mundo se unem para chamar atenção à importância do jornalismo baseado em fatos. Num momento em que existe mais informação do que em qualquer outro período da história humana, o jornalismo enfrenta um desafio peculiar. Nosso trabalho já não consiste apenas em contar às pessoas o que aconteceu. Cada vez mais, ele também consiste em ajudá-las a determinar o que é real, o que importa e o que de fato pode ser conhecido. Durante a maior parte da história do jornalismo moderno, a informação era escassa. Os jornais a reuniam, organizavam, imprimiam e distribuíam. Rádio e televisão ampliaram o alcance, mas a lógica básica permaneceu a mesma: jornalistas tinham acesso a informações que a maioria das pessoas não tinha. Esse mundo desapareceu e não voltará. Hoje, a informação está em toda parte. A IA acelerou essa transformação. Temos ao alcance das mãos mais informação do que qualquer geração anterior. Ainda assim, saber o que de fato está acontecendo pode parecer mais difícil do que nunca. Esse é o paradoxo enfrentado pelo jornalismo. Jornalistas erram e organizações jornalísticas têm pontos cegos. Mas o jornalismo, em sua melhor forma, oferece algo cada vez mais raro: um método. Verifique antes de publicar. Procure múltiplas fontes. Exija evidências. Ofereça contexto. Corrija erros. Mantenha o ceticismo diante de afirmações. Continue fazendo perguntas. Esses princípios importam tanto para o jornalista que documenta uma guerra quanto para quem investiga corrupção ou cobre uma eleição. Estamos entrando num mundo em que produzir informação ficará quase sem esforço. Determinar o que merece crédito não ficará. Esse talvez seja o grande desafio do jornalismo nos próximos anos. E sua maior razão de existir. Garry Pierre-Pierre. Jornalista, cofundador do The Haitian Times e vencedor do Prêmio Pulitzer.