(Unsplash) O mundo anda de cabeça para baixo, tropeçando nas próprias contradições enquanto discursa sobre paz em auditórios climatizados. Fala-se em estabilidade, em cooperação internacional, em agendas sustentáveis, mas o noticiário diário é um inventário de conflitos. Guerras declaradas cruzam fronteiras com tanques e mísseis, enquanto guerras não declaradas corroem sociedades por dentro, silenciosas, persistentes, lucrativas. Agora foi a vez do México tentar impor uma resposta dura ao narcotráfico ao eliminar um dos chefões ligados ao poderoso Cartel de Jalisco Nueva Generación. O gesto tem peso simbólico e político. Mostra força. Mostra decisão. Mas também escancara o tamanho do inimigo. Porque quando um líder cai, outro assume. O crime organizado não funciona com CPF, funciona com estrutura empresarial, logística global e fluxo de caixa em moeda forte. E essa guerra não respeita bandeiras. O cartel de Jalisco já estendeu seus tentáculos por diversas nações, incluindo o Brasil. O tráfico deixou de ser problema regional para virar cadeia internacional de fornecimento, com rotas, portos, aeroportos e mercados consumidores bem definidos. A globalização também serviu ao pó branco e às drogas sintéticas que cabem na palma da mão e destroem em larga escala. O Brasil já vive sua própria guerra silenciosa. Não tem declaração formal nem cobertura cinematográfica, mas tem estatística fria e caixão fechado. De 2025 para cá, as maiores apreensões de drogas da nossa história recente revelam duas verdades incômodas. A polícia está atuando com mais eficiência. E o volume que circula é gigantesco. Quando se apreende mais, é porque há muito mais em movimento. Pior é perceber que o cardápio do vício se sofisticou. Já não se trata apenas das drogas tradicionais. Substâncias altamente viciantes, químicas, baratas e devastadoras se espalham com velocidade assustadora. O mundo vive um contrassenso cruel. Combate conflitos externos com discursos inflamados e tolera conflitos internos que corroem sua própria base. Se não houver seriedade, coordenação internacional e firmeza doméstica, continuaremos a assistir a operações espetaculares que eliminam nomes enquanto o sistema permanece intacto. A guerra contra as drogas já é global. Fingir que ela é local é apenas mais uma ilusão confortável em tempos perigosos. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo