Bartolomeu Lourenço de Gusmão, jesuíta brasileiro e natural de Santos, nascido em 19 de dezembro de 1685, em pleno período colonial, desafiou as convenções de sua época ao explorar as fronteiras entre o possível e o imaginado. Guiado por uma curiosidade insaciável que confrontava as leis da gravidade, enquanto o mundo se contentava com o chão firme e as certezas tradicionais, ele contemplava as nuvens não como um destino místico, mas como o palco ideal para suas proezas de engenharia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A Passarola, ave mecânica envolta em mistério nas narrativas da época, serviu como disfarce engenhoso para a sua verdadeira obra: o balão de ar quente. Ao compreender a dança do fogo e do ar que permitia a ascensão, Bartolomeu não estava apenas imitando Ícaro, mas decifrando a essência física do empuxo. Em 1709, patenteou o sonho de elevar o homem aos céus — um marco registrado sob o selo de dom João 5º e considerado o primeiro grito tecnológico de um brasileiro. Longe das alturas, o gênio voltou-se para a terra: criou mecanismos para vencer a gravidade e conduzir água potável aos moradores das serras e dos morros, onde o acesso ao recurso era um sacrifício diário. Levou essa mesma astúcia aos engenhos de açúcar; ali, a inteligência das engrenagens substituiu o esforço braçal exaustivo, transformando a hidráulica em um braço forte a serviço da produção. O oceano, vasto e indomável, também foi cenário de suas inovações. Observando o sofrimento das embarcações vencidas pelo mar que entrava sem pedir licença, o inventor deu fôlego à madeira: concebeu mecanismos que agiam como um pulmão atento, ensinando o navio a respirar por si mesmo e a devolver ao abismo a água que ameaçava o seu destino. Seu intelecto incansável mergulhou nas complexas sombras da criptografia para proteger segredos de Estado, desvendou mistérios do fogo para criar combustíveis que aqueciam a vida e, durante seus últimos dias no exílio, buscou a luz e o infinito através do rigoroso polimento de lentes. O Padre Voador foi, acima de tudo, um arquiteto da realidade que compreendeu que a ciência é a mais bela forma de poesia, pois traduz o invisível em máquinas que impulsionam o progresso humano. Se a História tentou reduzi-lo a um mito ou zombar de sua Passarola, o tempo, com sua paciência imensa, restaurou-lhe a estatura de pioneiro. Bartolomeu Lourenço de Gusmão permanece, hoje, não como um simples criador de engenhocas, mas como o visionário que ousou acreditar que, com lógica, trabalho e uma pitada de coragem, é possível transformar o ar rarefeito em um lugar de passagem. Ele demonstrou que a mente humana, quando livre de amarras, é o motor que nos conduz às estrelas. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado, mestre em Direito Ambiental, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, do Instituto Cultural e de Pesquisas José Bonifacio, das academias de letras de Praia Grande e São Vicente, do Movimento Pró-Memória de Jose Bonifácio, conselheiro honorário do Santos Futebol Clube e associado do Rotary Club Santos Oeste