No mundo cristão, o galo representa tanto a vigilância e a prontidão espiritual quanto a ressurreição de Cristo. Seu canto ao amanhecer simboliza a vitória da luz sobre as trevas. De tão importante, ganhou uma missa para si (Imagem Ilustrativa/Pixabay) Era uma casa típica de subúrbio. Dois quartos, sala, e um quintal na frente. No telhado, um galo sobre uma rosa dos ventos, ambos de ferro, pintados de preto. Quando criança, era conhecido como o morador da casa do galo. Imponente, dizia-se que o galo o protegia. Hoje isso pode parecer exótico, mas, nos idos de 1960, não era incomum. Por que uma pessoa iria gastar tempo e dinheiro com esse tipo de instalação? A resposta era simples para quem se preocupava em proteger a família e manter viva uma tradição católica portuguesa. No mundo cristão, o galo representa tanto a vigilância e a prontidão espiritual quanto a ressurreição de Cristo. Seu canto ao amanhecer simboliza a vitória da luz sobre as trevas. De tão importante, ganhou uma missa para si. A maioria dos turistas, quando volta de Portugal, traz o Galo de Barcelos como souvenir. Muitos, no entanto, sequer conhece seu simbolismo. O Galo de Barcelos é famoso por estar ligado a uma lenda medieval. A história, transmitida oralmente ao longo dos séculos, diz que um peregrino estava a caminho de Santiago de Compostela para cumprir uma promessa religiosa. Ao passar por Barcelos, cidade ao norte de Portugal, ele foi acusado injustamente de um roubo. Sem provas, mas com a palavra do acusador, as autoridades o condenaram à forca. Antes da execução, o homem suplicou que o levassem ao juiz que o condenara. Na casa do magistrado, havia um galo assado servido sobre a mesa. Foi então que, diante daquela cena, o peregrino declarou: “Tão certo como eu estou inocente, esse galo cantará no momento em que me enforcarem”, motivo para risos. Porém, no exato momento em que o peregrino era enforcado, eis que o galo assado se levantou e cantou, o livrando da morte. Se verdade, não vem ao caso. É uma história fantástica, construída pelo imaginário popular sobre justiça divindade, fé e milagre. O galo também é nome de azeite famoso, mascote de futebol mineiro e da seleção francesa, neste caso não à toa. Conhecido como Galo Gaulês (Le Coq Gaulois), o seu simbolismo, remonta à antiguidade, com um trocadilho linguístico da palavra latina Gallus, que significa tanto galo quanto gaulês – nome dado aos antigos habitantes da Gália, região que corresponde à França atual. Desde a Revolução Francesa, o galo ganhou ainda mais força como símbolo de liberdade e de resistência de seu povo, e, hoje, como mascote da seleção francesa de futebol, não me traz boas lembranças. Na Copa do Mundo de 1998, ele nos fez amargar uma triste derrota na final. Dessa vez, não adiantou cantarmos de galo. *Marcio Aurelio Soares. Médico