(Imagem gerada por IA) Bons tempos aqueles em que se conseguia distinguir uma forma de jogar de uma seleção. A Inglaterra, assim como todo o Reino Unido, perdeu suas características, pois ostenta, talvez, o maior número de estrangeiros em cada time das suas ligas. A França, outrora reconhecida pelo futebol cadenciado, técnico e cerebral, transformou-se numa seleção de força física e velocidade, reflexo de um campeonato que exporta talentos precocemente e importa conceitos táticos variados. Já não existe “o futebol francês”; existe um mosaico multicultural eficiente, mas sem identidade nítida. A Alemanha, durante décadas símbolo da disciplina tática, da obediência coletiva e da frieza competitiva, também sucumbiu à globalização do jogo. O pragmatismo germânico deu lugar a um futebol híbrido, por vezes confuso, tentando equilibrar posse de bola espanhola, intensidade inglesa e criatividade latina. Perdeu-se a essência do rolo compressor alemão. A Espanha, que encantou o mundo com o toque de bola refinado e o famoso “tiki-taka”, também viu sua identidade diluir-se. O excesso de influência estrangeira em seus clubes e a necessidade de adaptação ao futebol físico e vertical acabaram por descaracterizar aquele estilo paciente e quase artesanal que a consagrou. Portugal, historicamente marcado pela habilidade individual e pela irreverência técnica, tornou-se excessivamente dependente de esquemas táticos pragmáticos. Produz talentos em abundância, mas parece abrir mão da espontaneidade em nome da competitividade imediata. Forma jogadores globais, mas já não exibe um futebol reconhecivelmente português. E o Brasil talvez seja o caso mais doloroso. O país que transformou o futebol em manifestação cultural abandonou sua própria identidade. O drible virou estatística inútil, a improvisação passou a ser pecado tático e o talento espontâneo cedeu lugar ao atleta mecanizado. Copiaram-se modelos europeus, importaram-se conceitos, treinadores, metodologias e até comportamentos. O resultado é uma seleção eficiente em teoria, mas órfã daquilo que a tornava única: a alegria, a criatividade e a imprevisibilidade. Hoje, vê-se um futebol cada vez mais padronizado. Todos pressionam, todos marcam por zona, todos saem jogando desde a defesa e todos parecem formar jogadores produzidos na mesma linha de montagem. O mundo globalizado aproximou estilos, mas, no caminho, roubou das seleções aquilo que as fazia inesquecíveis: a identidade. Espero que, na Copa do Mundo que se aproxima, o futebol reencontre suas origens e eu tenha o prazer de reconhecer que estava enganado. *Marcus Aurelio De Carvalho. Advogado e portuário aposentado