(Vanessa Rodrigues/AT) Chuva e frio intenso iniciam a nova estação. Em Santos, acostumados ao calor, desentocamos meias, casacos, cachecóis, boinas, xales e a memória de mãos tricotando nas sombras e no silêncio da noite. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Hoje, olhares perdidos na tevê, onde notícias repetidas destacam crimes, assaltos e os riscos climáticos que sacodem a Mãe Terra. A verdade não pode ir para baixo do tapete, mas é preciso alguma válvula de escape que dê vazão à ansiedade. A música, a leitura e a composição de textos em verso e prosa ajudam a relaxar. As texturas e as cores da aquarela tomam a intensidade da força que me resta. Pintando caquis, redescubro Rubem Alves. Convidado a fazer uma palestra num evento sobre a Carta da Terra, em Brescia, pediram-lhe que falasse sobre os jardins, seu tema favorito e assunto predileto do Criador. Os poemas bíblicos confirmam: Deus criou o universo só para nele plantar um jardim, o Paraíso. Rubem Alves adora o humor. E nesse tom, aponta três equívocos nas belíssimas telas de Dürer. Primeiro, pelo simples detalhe de colocar umbigos em Adão e Eva, poderia ter parado na fogueira. Umbigos só existem em seres nascidos de mães. Os entes paradisíacos não nasceram de mães. Surgiram das mãos do Criador. Não tinham umbigo. Adão e Eva foram pintados no seu estado de inocência. As maçãs que têm nas mãos ainda não foram mordidas. Eles estavam nus e não se envergonhavam. Não há razão, eis o segundo engano, para o galho com a maçã cobrir as partes mais interessantes do corpo. Na prosa poética, contundente, emocionante e engraçada, ele afirma que o fruto proibido tinha de ser de potência sedutora máxima. E mostra o terceiro lapso: o fruto do paraíso é o caqui! A maçã é fruta pudica. Só tira a roupa sob a violência da ponta da faca. E ainda geme quando é mordida. O caqui é pura entrega ao prazer! O palestrante finaliza com a história que ouviu no dia seguinte, num mosteiro da Itália. Em Nagasaki, depois da bomba atômica, uma planta começou a brotar: era um caquizeiro. O fruto revelou a esperança de que a vida triunfaria contra a morte, pois na semente aberta encontramos o prognóstico da estação do ano no Japão: ‘garfo’, inverno ameno; ‘faca’, frio intenso; ‘colher’, neve abundante. Na infância, tínhamos o hábito de abrir as sementes e nos divertir com a surpresa desses ‘desenhos’ diferentes. Só na velhice, porém, descubro os significados. No Brasil, o caqui é símbolo do outono, fortalecendo nosso corpo para enfrentar os rigores do inverno. A palavra ‘caqui’ deriva de ‘kaki’ (nome japonês); chamado dióspiro, alimento de Zeus, pai dos deuses. Conta a lenda, que o samurai Minamoto Yoshitsuné (século 12) derrubou um gigante com tanta força, que abriu um buraco na terra. Da fenda, brotou um caquizeiro carregado de frutos, devolvendo ao lutador a energia perdida. Por quase 20 anos tivemos um sítio batizado de Recanto da Paz. Paz tão almejada nestes tempos esquecidos da ternura, do respeito pelo outro e suas diferenças. Ali os dias eram amenos, talvez porque tivéssemos mais de vinte pés de caquis plantados pelo primeiro dono, de origem japonesa. Nos sonhos, quando me vejo no caquizal, colhendo e compartilhando a boa safra, lembro que sonhar com caqui significa a necessidade de cultivar a gratidão e a generosidade em nossa vida. Assim seja!