(Divulgação) A recente pesquisa Datafolha, mostrando a ascensão do candidato Pablo Marçal na disputa pela Prefeitura de São Paulo, provocou autêntico terremoto político. O influenciador, filiado a um partido nanico (PRTB), sem apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, teve crescimento notável e, com 21% das intenções de voto, revelou-se em empate técnico com Guilherme Boulos, do PSOL (23%), e com o prefeito Ricardo Nunes, do MDB (19%), que concorre à reeleição. A esta altura, é difícil dizer até onde irá a candidatura Marçal. Ele avançou, de modo significativo, no bolsonarismo (44% daqueles que disseram ter votado em Jair Bolsonaro em 2022 preferem Marçal, contra 30% que disseram ter intenção de votar em Ricardo Nunes). Mais do que um fenômeno restrito à extrema-direita, que estaria vivendo intensa disputa interna (um analista referiu-se a autêntico Game of Thrones neste campo), é preciso, entretanto, entender as razões do crescimento do influenciador. Ele é a manifestação mais intensa da antipolítica. Faz questão de se apresentar como contestador de tudo e de todos, sem qualquer compromisso com programas ou propostas. Usa e abusa da agressão, da mentira, do histrionismo, de olho apenas no uso de suas imagens e falas nas redes sociais. Isso atraiu a atenção, típica de tempos onde fatos são aqueles narrados e propagados na velocidade da internet, sem preocupação com a verdade ou a confirmação. Arrisco dizer, portanto, que, além de atrair a atenção de setores da extrema-direita, insatisfeitos com a “moderação” de Ricardo Nunes, ele vem conquistando apoios pela sua postura absolutamente não convencional. Vivemos, de fato, tempos complicados. É inacreditável que a maior cidade do País possa inclinar-se por figura tão sem sentido, desprovida dos requisitos mínimos para administrá-la com seriedade e responsabilidade. Fica claro que, pelo menos neste momento, parcela importante da população, absolutamente descrente de tudo e de todos, esteja fazendo essa escolha. É semelhante ao voto de protesto – Cacareco, Macaco Tião, Tiririca – que já marcou outras eleições. A diferença é que agora as coisas são sérias, e envolvem a definição de quem será responsável por governar São Paulo, com seus problemas e desafios gigantescos. Os sinais são que o bolsonarismo irá resistir a Marçal. Não só o ex-presidente tem reafirmado que não irá apoiá-lo, como seus filhos já dispararam contra ele nas redes sociais, em termos fortes e contundentes. Afinal, não interessa a eles um competidor forte, capaz de dividir o movimento em que reinaram até aqui absolutos. Por outro lado, há o 2º turno, e parece bastante provável que, se Marçal chegar lá, outros candidatos – Boulos, Nunes, Tabata – se unirão para derrotá-lo. É muito cedo para dizer se o influenciador manterá o fôlego. Já se viram fenômenos semelhantes em outras eleições – candidatos com força popular que despontam e depois perdem força, como Celso Russomano no passado, em São Paulo. Os tempos são outros, entretanto. De qualquer maneira, é aterrador imaginar que Pablo Marçal possa vir a ser prefeito da Capital paulista. Prefiro apostar que ele é um cometa passageiro, que vem com brilho intenso, mas que logo desaparece no horizonte. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)