(Reprodução/Pixabay) O maior apanágio de um escritor consiste na qualidade do que escreve, não necessariamente na sua formação. Houvesse uma exigência de formação para a escrita, mais de 80% de tudo que já se escreveu seria perdido. Antes do século 20 praticamente não existia curso de Letras. Quase todos os grandes clássicos (Shakespeare, Cervantes, Goethe, Machado de Assis, Dostoiévski) seriam eliminados. No século 19 e início do 20, época de preconceitos e exclusões, era comum as famílias ricas quererem ver seus filhos ou médicos ou advogados. A vaidade de ostentar um ‘doutor’ antes do nome era mais uma imposição social que uma escolha vocacional. Dessa situação brotaram gênios que subverteram o canudo acadêmico. Tivemos nomes como Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Castro Alves, Franz Kafka, todos formados em Direito; Guimarães Rosa, Anton Tchekhov, Moacyr Scliar, que trocaram o estetoscópio pela pena; Carlos Drummond de Andrade, farmacêutico. Em todos eles, a vocação literária foi mais forte que o título de ‘doutor’. E Machado de Assis, o mais consagrado autor da literatura brasileira, simplesmente não tinha formação superior. José Saramago fez o curso de técnico em serralheiro mecânico numa escola industrial, que foi o seu maior grau de escolaridade formal. Imaginem só que prejuízo para a humanidade filtrar os escritos em razão de sua titulação. Graciliano Ramos... que escritor! Qual o seu diploma? Assim como Machado, um autodidata brilhante. William Shakespeare nunca frequentou uma universidade. A literatura reside mais na alma do que nos diplomas. Ela está no olhar atento e encantado para a vida – captando atmosferas, símbolos e traços de personalidade – para se traduzir na mensagem que o autor deseja manifestar. Nas crônicas, o escritor é como um fotógrafo da escrita, que colhe um detalhe do cotidiano e sobre ele coloca uma lupa para que o vejamos de outra forma, trazendo conexões e correlações que expandem a nossa percepção do mundo. O jornalismo vive da escrita, mas voltado para a informação. Alguns jornalistas, porém, elevam esse espaço com a beleza literária de seus textos. A maior referência brasileira no jornalismo literário é Eliane Brum, acompanhada por nomes como Caco Barcellos e Ruy Castro, que transformam o fato em arte. Não é preciso ir muito longe, nem pensar só em famosos para encontrar um belo texto literário em meio jornalístico. Um dos mais sensíveis que já li foi aqui mesmo neste periódico: A Realidade Concreta das Miragens, de Ronaldo Abreu Vaio. Frequentemente, damos muita relevância às informações pré-textuais, buscando na qualificação do autor uma garantia para o texto. Contudo, em se tratando de literatura, a história tem mostrado que isso pode ser um grande equívoco. Que o digam Cora Coralina e Carolina Maria de Jesus. *Reinaldo Mota Jr. Servidor público, pós-graduado em Literatura Contemporânea