Próximas à minha casa, no Embaré, inúmeras construções começaram nas últimas semanas. Outras tantas residências foram demolidas, e agora há grandes terrenos vazios. Em domingo recente, parada em uma esquina, uma senhorinha, desolada, contemplava o final de uma das demolições e lamentava em voz alta: “Aqui estavam casas bonitas, e agora nada”, acrescentando: “O que vai ser desta cidade, com tantos prédios altos?” A senhorinha não está sozinha no seu protesto. As pessoas, especialmente as mais velhas, imaginam que cidades ideais para se viver seriam aquelas com belas residências com jardins e quintais. Há discurso firme – mas exagerado - de oposição à verticalização: torres prejudicam iluminação e ventilação, pioram a qualidade de vida, sobrecarregam a infraestrutura de serviços públicos, e logo haverá colapso no fornecimento de água e energia elétrica, no sistema de esgotos, além do caos no trânsito. É preciso, porém, reconhecer que os tempos são outros, que o ambiente social foi modificado, e que os hábitos de vida se transformaram. Santos é, de fato, a cidade com maior percentual de população vivendo em apartamentos no Brasil (63%), mas a ocupação do município se dá na parte insular, que tem apenas 39 km2. E o grande paradoxo é que as pessoas reclamam dos prédios altos, mas desejam morar em um deles. As famílias são muito menores, há muita gente sem filhos ou vivendo sozinha. Estas não almejam casas, e sim apartamentos funcionais. Desejam serviços no local de moradia, como piscinas, academias, salões de festas. É claro que são necessários critérios para a ocupação do solo. Recuos e limites no aproveitamento devem existir. O modelo santista não é, porém, a muralha de Copacabana, ou os padrões de Balneário Camboriú. Muitos projetos recentes são criativos e belos do ponto de vista arquitetônico, embora haja, infelizmente, exceções. O argumento da “especulação imobiliária”, brandido pelos adversários, é incorreto. Especular é estocar terrenos, visando lucros maiores no futuro. Não é o que acontece: compram-se terrenos, os projetos são feitos, as obras começam quase imediatamente e os prédios ficam prontos em pouco tempo. Empreendimentos imobiliários são voltados ao lucro de construtores e incorporadores, que utilizam muitas vezes financiamentos com altos juros. Não são vilões ou malfeitores, interessados em destruir a cidade, embora, mais uma vez, possam ser feitas sérias ressalvas às condutas de alguns. Prédios altos não são, enfim, a tragédia que se anuncia. São a realidade social, cultural e econômica, enquanto a mudança da paisagem urbana é fato histórico. *Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna