[[legacy_image_337242]] As redes sociais não param de nos surpreender. Na maioria das vezes, de forma negativa. Em busca de seguidores, muitos têm apelado para “genuínas mentiras” ou bizarrices sem limites. Mentiras têm atraído a atenção de milhões de usuários, que se colocam na posição de seguidores. Seguem o falso, o enganador e, o pior, ajudam a propagar ideias fantasiosas. Deve haver uma espécie de “realização profissional” em pessoas que postam vídeos em que mentem sem gaguejar e, especialmente, sem desviar o olhar para o canto superior direito (sinal de criação de enredo, segundo princípio básico de programação neurolinguística). O dramaturgo Arnaldo Jabor já dizia que, na mentira, o autoengano é essencial, ideia seguida à risca por essas pessoas. Há, ainda, a escalada das mentiras, que se sucedem sempre mais inverossímeis e mais convincentes do que a anterior, mesmo que possam ser desmascaradas com o simples confronto com o calendário, como quando alguém alega ter pilotado avião militar em guerra ocorrida em época em que o suposto piloto usava fralda e chupeta. Mentiras são utilizadas para pesquisa de mercado e parecem convencer mais facilmente quanto mais dissociadas da realidade. Quanto mais insólitas, maior sua divulgação. Então, executa-se o tão planejado último ato: a captação de dinheiro por meio da venda de cursos de obviedades, ou da oferta de investimentos em renda variável com promessa de rendimentos de renda fixa (nesse caso, qual é o milagre?). E por falar em milagres, nas redes sociais proliferam religiosos que, autoproclamados ungidos pelo Espírito Santo, apresentam a cura para todos os males – a panaceia espiritual. Quer ficar rico? Em distorcida interpretação do texto bíblico, basta seguir os passos de Jesus (didaticamente apresentados pelo líder religioso) que implantou espécie de gestão divina na carpintaria de José e, com isso, tornou-se rico e comprou uma enorme casa de praia. É possível também emagrecer com a “unção do emagrecimento”, ou alcançar cura aspirando o ar de balões cheios com o sopro do Espírito Santo que se fez valer dos sadios pulmões de um religioso para enchê-los, ou testemunhar o relato de amostra grátis de poder divino que se manifesta no religioso que ressuscita cachorros. Além das mentiras, somos submetidos à avalanche de bizarrices. E, no universo das bizarrices, não há virtude alguma, nem ao menos a “virtude da criatividade” encontrada nas mentiras. Sempre é fundamental, sem pudores, superar a bizarrice alheia. Utilizar par de luvas com destinação diversa para a qual foi confeccionada pode fazer abarcar mais de 20 milhões de seguidores. Encontrar-se em situação de rua e postar o dia-a-dia revelando as “virtudes do ócio absoluto” traz mais de 1 milhão de seguidores (talvez, por acrescentar à vida de alguns o mesquinho sentimento de conforto por saber que há alguém em situação social menos favorecida). Filmar parentes idosos em situação constrangedora ou vexatória pode garantir milhares de seguidores. E enquanto houver audiência, mentiras e bizarrices nas redes sociais só tendem a aumentar, no rentável culto ao conteúdo do nada.