(Imagem ilustrativa/Pexels) Disseram-me uma vez, e ainda acredito, que algumas sementes vieram de terras distantes, em caravelas, cruzando o oceano em tempos ditos perigosos; naquela época acreditava-se em monstros marinhos tenebrosos e no mundo ser quadrado. Essas sementes afetuosas, desoladas, tristes por deixar a sua pátria em silêncio, sem poder manifestar-se, chegaram à Terra de Santa Cruz. Traziam fatores genéticos das suas origens e começaram a misturar-se com as que encontravam na nova terra. Aconteceu então, quase uma “adoção” de irmãs. Ora, nesta terra onde tudo que se planta dá, algumas germinaram, silenciosas, nas fazendas e nas florestas. Um ato de resistência e alegria fazia parte vital desse processo. Aos poucos, tudo ganhou uma identidade singular e poderosa. Surgiram árvores e flores diferentes, únicas e excêntricas, somente encontradas na nova terra. Outros países já observavam atentamente, visto que apenas ali, encontravam aquelas raridades; tentaram cultivar, levando algumas sementes para lá brotar. De fato, brotaram, mas não tinham a mesma qualidade. Faltava algo de exuberante para florescer. Provavelmente, os ares tropicais ajudaram a tornar algo raro e admirável. Após alguns séculos, essas sementes começaram a ser plantadas nas casas e nos morros, de gente simples, humilde. Desabrocharam e espalharam-se nas ruas, nas esquinas; eram vistas como expressão artística, transcendendo a pobreza e a opressão de maneira espontânea. No morro criaram raízes, como fogo em palha seca, fincando profundamente no coração das pessoas. Caminharam para a metrópole de avenidas largas e praças monumentais; entraram nos bares e nos salões sofisticados, sem perder a essência bucólica e autêntica, tornando-se ponte entre diferentes classes e culturas com encanto contagiante, significativo e poético. Cada vez ganham mais força, sem perder a tradição, e transformam-se em árvores frondosas, cujas copas abrigam sonhos e esperanças. No Carnaval, descem o morro para transformar e levar à cidade: alegrias, cores e celebrações à vida! Assim é o samba, patrimônio cultural e imaterial do Brasil, espalhando sementes para manter viva a memória e o espírito daqueles que o originaram. Acredito que o samba de raiz é mais que um simplório ritmo; é uma herança de costumes, um legado que deve ser preservado e valorizado. Que essas sementes continuem a germinar e a crescer, alimentando novas gerações com a sua beleza e vitalidade. A resposta do surdo fez a cuíca chorar, ecoando o som pelas ruas desertas, o silêncio foi quebrado pelo tamborim e no final o samba não morreu! Será que essa quadra daria um bom samba? *Jardel Pacheco. Escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais