<p data-end="515" data-start="117">Santos abriga uma diversidade de lugares, cada qual com sua própria atmosfera. Entre eles, para mim, há um recanto pitoresco, eu diria até charmoso, situado bem próximo à divisa com a cidade vizinha, e por ironia ou acaso, carrega o nome de um barão, como se a nobreza tivesse deixado ali um traço de sua memória. Um curso d’água não é apenas corrente líquida, mas também testemunho de tempos idos.</p> <p data-end="828" data-start="517">O canal da Avenida Barão de Penedo, dizem alguns, foi pensado para ordenar o fluxo das águas e, quem sabe, também o das vidas que se instalaram em suas margens. O que se vê hoje é uma mistura de passado e presente, como se o tempo tivesse se esquecido de concluir a obra... A cidade carece de precisos cuidados.</p> <p data-end="1039" data-start="830">Não é tão largo nem estreito, nem belo nem feio, simplesmente é. Atravessa a avenida como cicatriz marcada na pele, e os moradores, acostumados, já não o percebem como novidade, e sim como presença inevitável.</p> <p data-end="1406" data-start="1041">Como todo espaço público, é palco de encontros e desencontros, de conversas interrompidas pelo barulho de uma moto, de olhares que se cruzam e se perdem, de silêncios prolongados além do necessário. Existe também o cheiro, ora de maresia, ora de terra molhada, ora de lixo esquecido, porque o humano tem essa mania de deixar rastros, e o canal, paciente, os guarda.</p> <p data-end="1809" data-start="1408">Barão de Penedo talvez não imaginasse que seu nome sobreviveria mais pelo curso d’água do que por feitos políticos ou sociais. Porém assim é a vida, que escolhe seus monumentos sem consultar ninguém. O canal é mais do que água que corre; é tempo, história, cidade em seus interstícios. Ah! Santa Água pura, vinda do Morro da Terezinha, onde fé e paisagem se encontram, promessa de bênçãos que renovam.</p> <p data-end="2213" data-start="1811">Ali, em algum momento, encontramos a garça imóvel, branca como se fosse pensamento pousado, no instante em que o orquidário respira perfumes invisíveis e a igreja anglicana ergue sua torre discreta, testemunha de um tempo que não se apaga. A cidade, como os homens, precisa de símbolos para acreditar em permanência, mesmo quando o vento insistente, às vezes muito quente, leva embora o efêmero eterno.</p> <p data-end="2795" data-start="2215">Quem passa por ali, distraído, talvez não perceba, mas há sempre um murmúrio, como se falasse, e o que ele diz não é grandioso nem solene, apenas a lembrança de que tudo o que se constrói, cedo ou tarde, se transforma em paisagem e a paisagem, por sua vez, em narrativa. E assim Santos, com sua diversidade de lugares, guarda no canal da Avenida Barão de Penedo um capítulo que não se encerra, porque continua a ser escrito todos os dias por aqueles que vivem, passam, olham, esquecem e, sem saber, perpetuam a crônica silenciosa de um recanto pitoresco. Eu ainda diria, charmoso.</p> <p data-end="2959" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2797">*Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios</p>