O enfrentamento ao bullying demanda mais do que tentativas: requer ações concretas, estratégias bem definidas e o compromisso de especialistas (Freepik) Um menino tirou a própria vida em um dia 12 de agosto. Escrevo, um mês depois, porque a certeza dos fatos é mais importante do que manchetes de jornais ou cliques e views em redes sociais. Hoje é possível dizer com absoluta convicção que a decisão extrema dele foi muito influenciada pelo bullying que ele sofria em uma das escolas mais tradicionais de São Paulo, por ser bolsista, negro e gay. De quem é a culpa pelo ocorrido? Afirmo, categoricamente, que toda a sociedade tem sua parcela de culpa, com exceção, claro, das vítimas, o adolescente, sua família e milhões de pessoas que acordam e enfrentam o dia a dia, vítimas de uma sociedade sem empatia. Uma sociedade onde uma pessoa financeiramente bem-sucedida é classificada com ‘elite’, enquanto o jovem, um menino brilhante, que mesmo com poucas chances conquista uma vaga em uma das escolas mais conceituadas da cidade, é chamado de ‘periférico’. O bullying nas escolas, muitas vezes praticado por jovens de famílias privilegiadas, levanta questões sobre a responsabilidade na formação de crianças e adolescentes. Aos 14 anos, esses adolescentes replicam os preconceitos e a violência que a própria sociedade lhes ensina. Seriam eles os únicos culpados? Ou os pais e a sociedade, que deveriam priorizar uma educação que vá além do conteúdo escolar, fomentando empatia, responsabilidade social e respeito à diversidade? No contexto do tradicional colégio de São Paulo, a discussão ganha contornos específicos. A instituição é conhecida por abrir suas portas a alunos de diferentes realidades socioeconômicas, como é o caso desse menino, morador de Osasco, e filho de trabalhadores, que não pode arcar com a mensalidade de mais de R\$ 5 mil. Apesar dessa diversidade, a escola alega que possui um projeto próprio de convivência para promover a inclusão e combater o bullying. No entanto, ficam perguntas no ar. Qual é o conteúdo desse projeto? Onde está documentado? Quais ações concretas foram implementadas? Existe um programa permanente que promova a cultura da paz e enfrente o bullying de maneira eficaz? A Lei 13.185/2015, conhecida como a Lei do Bullying, exige essas respostas e o Código Penal, em seu Artigo 146-A, agora classifica o bullying como crime, caso não ocorra um delito mais grave. O colégio paulistano, assim como muitas outras instituições, afirma estar enfrentando o problema. Porém, o enfrentamento ao bullying demanda mais do que tentativas: requer ações concretas, estratégias bem definidas e o compromisso de especialistas. Nenhuma escola quer seu nome associado ao bullying, mas cabe às instituições o desenvolvimento de um plano robusto e consolidado para combater essa prática. E é justamente isso que muitas instituições de ensino (do Ensino Fundamental ao Pós-doutorado) parecem ignorar. O jovem teria avisado a escola e a entidade conveniada que lhe concedeu a bolsa. Ninguém soube como agir para impedir a sua dor. É preciso falar sobre como o bullying afeta as vítimas por toda a vida. Somente em 2024, tivemos duas mortes de vítimas diretas de bullying. Um menino de 13 anos, agredido em uma escola estadual em Praia Grande, e esse caso mais recente na Capital. Como sociedade, temos dois caminhos: começar a agir de maneira firme contra o bullying ou aguardar o próximo nome que vai estampar as manchetes dos jornais. *Presidente da Associação SOS Bullying, mestre e doutoranda pela PUC/SP, professora universitária e pesquisadora em cyberbullying e violência digital