O Japão acaba de ultrapassar uma marca histórica. São 107.677 pessoas com 100 anos ou mais. Pela primeira vez, o país supera a barreira dos 100 mil centenários. O número cresce há 56 anos consecutivos. Quase 88% são mulheres. É uma conquista da Medicina, da alimentação, das condições de vida e, também, da capacidade de uma sociedade se organizar para viver mais. Mas há uma contradição que não pode ser ignorada. O mesmo país que celebra a longevidade enfrenta o envelhecimento acelerado da população, a redução da força de trabalho e a pressão sobre a previdência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A população envelhece. A conta chega. O Brasil precisa olhar para o Japão com atenção. Não para copiar modelos, mas para compreender o que está diante de nós. O brasileiro também está vivendo mais. A fecundidade caiu. A estrutura etária está mudando. E o país ainda não se preparou, na dimensão necessária, para essa transformação. O problema não é ter idosos. O problema é envelhecer sem planejamento. O Brasil precisa fazer o básico, que há décadas vem sendo adiado. Investir em saúde preventiva, fortalecer o Sistema Único de Saúde, ampliar o atendimento geriátrico, preparar profissionais para cuidar da população idosa e garantir que envelhecer não seja sinônimo de abandono, doença e pobreza. Precisa, também, enfrentar a questão previdenciária com seriedade. Não com improvisos, discursos fáceis ou medidas que apenas empurrem o problema para o próximo governo. Uma população que vive mais exige planejamento financeiro, equilíbrio nas contas públicas e políticas que permitam aos idosos continuar participando da vida econômica e social. E há outra frente. O Brasil precisa criar condições para que os jovens possam formar suas famílias, se assim desejarem. Moradia, emprego, educação, segurança e renda são fatores que influenciam as decisões sobre ter filhos. Não se trata de obrigar ninguém a reproduzir um modelo de vida. Trata-se de não tornar a maternidade e a paternidade um privilégio reservado a quem tem dinheiro. O Japão mostra que viver mais é uma vitória. Mas mostra também que a longevidade, sem planejamento, pode se transformar em um desafio monumental. O Brasil ainda tem tempo para se preparar. O que não tem é o direito de continuar tratando a mudança demográfica como assunto secundário. A velhice não começa aos 100 anos. Começa muito antes. E a responsabilidade de garantir um envelhecimento digno também. O futuro brasileiro será mais velho? A pergunta deveria ser “se será também mais justo”. É preciso agir agora. Sem propaganda. Sem ilusões. Com planejamento, investimento e responsabilidade. Porque o tempo passa. E a demografia não negocia.