(Marcello Casal Jr/Agência Brasil) O brasileiro não compra. Ele acredita. E paga. Paga no crédito, paga no débito, paga no Pix, paga até com esperança parcelada em dez vezes sem juros. Segundo pesquisa recente, 87% já usam Pix, 83% cartão de crédito e o dinheiro vivo virou peça de museu moral. Ou seja, o brasileiro paga rápido, fácil e, sobretudo, sem olhar muito para trás. É aí que começa a tragédia. Toda ingenuidade brasileira tem vocação para o drama. Afinal, no meio do caminho, alguém sempre passa o chapéu. Hoje, não é mais chapéu. É link, chave Pix, conta internacional e promessa com logotipo bonito. O brasileiro moderno não cai mais em conto do vigário. Ele cai em PowerPoint. A pesquisa Opinion Box diz que 58% já foram vítimas de algum tipo de golpe ou tentativa. Repare no detalhe. Não é minoria. É quase um costume nacional. Como tomar café ou reclamar do governo. O problema não é só o golpe. O problema é o enredo. Tudo começa com uma promessa que parece séria. Tem selo, tem prêmio, tem foto em revista, tem escritório em três países e até uma palavra mágica que ninguém entende direito, mas todo mundo respeita. Sefardita, genealógico, internacional. Parece latim, então deve ser verdade. E o brasileiro acredita porque precisa acreditar. O sujeito não quer enriquecer. Quer documento. Quer existir legalmente. Quer parar de trabalhar escondido. Quer virar cidadão antes que a lei mude, o tempo passe e a vida aperte mais um pouco. Então ele paga. Paga parcelado, como manda a liturgia nacional. Porque o cartão de crédito, segundo a mesma pesquisa, ainda é o meio preferido de pagamento, não pela confiança, mas pela ilusão de controle. Parcelar é o ato mais brasileiro depois de reclamar. Só que o golpe também parcela. Entrega a primeira ilusão na entrada, a segunda na terceira parcela e a décima vem com a promessa de que “está em andamento”. Tudo em andamento neste país, menos o que deveria. E quando a vítima percebe, já não é mais cliente. É personagem. Personagem de um drama típico. Primeiro a fé. Depois a dúvida. Em seguida a descoberta. Por fim, o grupo de WhatsApp com outras noventa pessoas dizendo exatamente a mesma coisa. É o momento em que o brasileiro descobre que não foi enganado sozinho. Foi enganado em comunidade. Porque o mais impressionante não é o golpe continuar existindo. É ele continuar funcionando. Mesmo depois de denúncia, reportagem, exposição. Mesmo depois do nome circular, das histórias se repetirem, das vítimas falarem. O perfil continua ativo. A promessa continua sedutora. O pagamento continua fácil. O Brasil deixou de usar dinheiro em espécie, mas nunca abandonou o crédito emocional. E talvez seja esse o verdadeiro meio de pagamento nacional. Não o Pix, não o cartão, não o débito. A confiança. Essa, sim, segue sendo transferida instantaneamente, sem taxa e, quase sempre, sem volta. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo