Crescimento dos processos reflete, por um lado, maior conscientização dos trabalhadores (Reprodução) Atenção, senhores e senhoras! Temos aqui um retrato da saúde do trabalhador brasileiro – ou da falta dela. Em 2024, os tribunais do Brasil foram invadidos por 831 mil processos relacionados à insalubridade. Sim, você leu certo: oitocentos e trinta e um mil. Isso dá uma média de 2.481 novas ações por dia, ou, se preferir, mais de 100 processos por hora. Enquanto você toma um café e volta à leitura, novos trabalhadores estarão se somando a essa multidão. O número não é só gigantesco. Trata-se de um salto de tirar o fôlego – 86% a mais do que em 2022, quando tivemos 446.366 processos. Vamos combinar, é um crescimento que faria inveja a qualquer empresa da B3. E quem puxa essa fila? São Paulo, claro. O Estado, sozinho, carrega 42% de todos os processos, com impressionantes 354.372 ações ajuizadas apenas entre janeiro e novembro de 2024. Traduzindo: mais de mil paulistas batem à porta da Justiça todos os dias em busca de seus direitos.</CW> O que está acontecendo? Em uma palavra: indignação. Os trabalhadores parecem ter chegado ao limite e decidiram não mais engolir condições de trabalho que põem em risco sua saúde ou segurança. Afinal, quem gosta de passar o dia respirando produtos químicos, exposto a ruídos ensurdecedores ou lidando com agentes biológicos perigosos? Para esses cenários, a legislação prevê adicionais de insalubridade de até 40% do salário mínimo. Um paliativo para compensar o que deveria ser inaceitável: a exposição cotidiana a perigos. O crescimento dos processos reflete, por um lado, maior conscientização dos trabalhadores. Eles estão mais atentos, bem informados e determinados a buscar seus direitos. Por outro, expõe a teimosa negligência de muitas empresas que, em vez de investirem em condições adequadas de trabalho, optam por economizar nos equipamentos de proteção, ventilação ou controles ambientais – só para depois pagar a conta nos tribunais. O Rio Grande do Sul, o segundo estado com mais casos, segue na mesma toada. Saiu de 49.921 processos em 2022 para 72.682 em 2024. É um aumento de 45%, praticamente um retrato do que acontece em todas as regiões do Brasil. Não se engane: não estamos falando apenas de números frios. Cada um desses processos é a história de alguém que, para sustentar a família, se expõe diariamente a condições de trabalho que, no mínimo, deveriam ser proibidas. E agora? Continuaremos como espectadores passivos desse teatro insalubre? Ou começaremos a cobrar mudanças reais? A Justiça trabalhista tem feito seu papel, mas a solução não está nas salas dos tribunais. Está na educação corporativa, no investimento em tecnologia e, sobretudo, no respeito à dignidade humana. No ritmo que vamos, o Brasil não precisa de mais processos. Precisa de mais empresas comprometidas e menos trabalhadores adoecidos. O país dos recordes tem mais um título para exibir. É o campeão da insalubridade processada. Mas cuidado, Brasil, porque esse troféu ninguém quer segurar. * Jornalista, radialista e filósofo