Imagem ilustrativa (Freepik) O Brasil está fincando velho e nem nos damos conta disso. Já podemos dizer que somos o País dos idosos abandonados, uma vez que o brasileiro sempre acreditou que a velhice era assunto dos outros. Ela morava na casa da vizinha, na novela das oito ou na fotografia amarelada dos avós. Um belo dia, bateu à porta de todo mundo. Entrou sem pedir licença e sentou na sala. Os números não discutem. Eles apenas constrangem. O IBGE revela que o número de familiares dedicados ao cuidado de pessoas com mais de 60 anos passou de 3,7 milhões para 5,1 milhões entre 2016 e 2019. O Censo de 2022 mostrou um crescimento de 57,4% da população idosa em apenas doze anos. O Brasil de 2026 reúne aproximadamente 214 milhões de habitantes, com expectativa de vida próxima de 77 anos. Em 2070, o país terá cerca de 199 milhões de pessoas e viverá, em média, quase 84 anos. A conta parece bonita até aparecer o rodapé. Haverá menos jovens, menos trabalhadores, menos filhos e muito mais idosos. A medicina fez sua parte. O Sistema Único de Saúde ampliou vacinação, prevenção, acesso a tratamentos e controle de doenças crônicas. A qualidade de vida melhorou, a alimentação mudou para uma parcela da população, a atividade física deixou de ser luxo para virar recomendação médica e muita gente aprendeu que viver mais depende também de viver melhor. O problema nunca foi aumentar os aniversários. O desafio sempre foi descobrir quem apaga as velas junto. O retrato do IBGE revela uma realidade quase doméstica. Mais de 83% dos idosos precisam de companhia e monitoramento dentro de casa. Cerca de 74% necessitam de ajuda nos cuidados pessoais. Mais de 61% dependem de alguém para consultas, exames e atividades sociais. A palavra mais importante dessa estatística não é cuidado. É presença. Só que presença virou artigo de luxo. Os filhos estudam longe, trabalham longe, casam longe e, quando conseguem férias, passam mais tempo nos aeroportos do que na casa dos pais. Não existe maldade nisso. Existe um país que empurrou as famílias para diferentes CEPs em nome da sobrevivência. O mercado celebra a mobilidade enquanto a velhice cobra permanência. O resultado aparece silenciosamente nas filas do SUS, nos condomínios e nos apartamentos onde a televisão conversa mais do que os parentes. O Brasil aprende que a solidão também envelhece. A economia observa tudo com uma planilha na mão. Menos trabalhadores significam menor arrecadação, maior pressão sobre Previdência, saúde pública e assistência social. O Brasil ficou mais velho antes de amadurecer. Talvez essa seja a estatística mais cruel de todas. Os cabelos embranqueceram mais rápido do que as políticas públicas. As famílias diminuíram antes que existisse uma rede suficiente de apoio. A expectativa de vida cresceu enquanto a disponibilidade de tempo encolheu. A velhice não é uma tragédia. Tragédia é fingir surpresa diante dela. O país vive mais. Agora precisa aprender a não deixar ninguém envelhecer sozinho. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo