(Imagem ilustrativa/Pixabay) Estava começando a desfrutar da leveza da aposentadoria após 48 anos ininterruptos de trabalho e tudo caminhava no sentido de uma vida sossegada, sonhada por todos os mortais. Porém, e sempre tem um porém, esses planos foram interrompidos com a chegada de um presente de Deus em forma de bebê. Isso aconteceu há exatos 12 anos, quando uma criaturinha frágil e apaixonante, gerada pela minha querida enteada Beatriz, me tornou avô pela primeira vez. Começava ali um tempo de encantamento aflorado ainda na maternidade, quando o peguei no colo pela primeira vez e nossos olhares se encontraram. Foi a primeira vez que meus olhos lacrimejaram e a partir daí não desgrudamos mais. Como única pessoa ociosa da casa, assumi o “sacrifício”’ de cuidar daquele anjinho, com todos os mimos e tolerância. Com o apego crescendo a cada dia, lembro-me da vez em que ele vinha engatinhando lentamente pelo corredor em direção à cozinha e, quando me viu, saiu em disparada feito uma lagartixa assustada e se jogou em meus braços, feliz da vida. De novo, os olhos marejaram. Já aos 3 anos, junto com a fase dos porquês, veio o súbito interesse pelos animais, o que me fez comprar dezenas de bichos de plástico em uma banca perto de casa. Íamos juntos. Ele escolhia os que mais apreciava e, transbordando de alegria, sempre agradecia com abraços, beijos e palavras carinhosas tipo “’vovozinho, eu te amo”.’ No pacote das emoções vieram também seres surreais, como as galinhas Pintadinha e Magricela, o seu Lobato, a Patrulha Canina e uma tal de Peppa, que a tudo questionava. Na sequência, surgiu a paixão pelo futebol. Eu, um idoso que clamava por paz e sossego, me vi mais uma vez no dever de fazê-lo feliz, disputando peladas no corredor. Devido ao esforço excessivo, adquiri uma hérnia inguinal e precisei fazer cirurgia. Mas nunca me queixei. O período mais difícil foi o da pandemia, que nos afastou por quase um ano até o dia em que, aos prantos, ele me ligou para dizer que estava com saudade. Era um forte apelo e assim, tomando todas precauções, fui vê-lo. Sabendo do meu prato preferido, ele pediu à cozinheira que fizesse arroz, feijão e bife acebolado sem cebola (odeio cebola). Depois, me chamou para jogar futebol no videogame e, para não me ver triste, escolheu para si o pior time que existe. Mesmo assim, perdi todas. Esse é o meu neto Pedro Henrique, que hoje troca a infância, a fase da inocência, pelos desafios da adolescência. É o menino que mudou o rumo da minha aposentadoria. É o amor em pessoa. *Jornalista