(Pixabay) A natureza é Mãe. Alice, podóloga do Derm Center, também, mas é mãe adotiva. Morando há anos em Santos, na Avenida Ana Costa, despertava com a algazarra dos periquitos nas palmeiras do canteiro central! Distraída com as aves, atrasava o café. Aos domingos, o trânsito diminuía e os periquitos tomavam conta do espaço, saudando a manhã com o canto estridente. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Alice não é a do País das Maravilhas, mas nos encanta com sua conversa, enquanto cuida de nossos pés. Sua curiosidade aumentou quando se mudou para Peruíbe. O lado naturalmente materno de Alice cumpre-se na cidade voltada à preservação da natureza. Alice adora caminhar com sua cadela pela praia de 12 quilômetros de extensão, apreciando as corujinhas na reserva fechada para garantir a reprodução da espécie. Os gaviões, belos e imponentes, ficam de olho nas pequeninas para saciar a fome, na sequência linear da cadeia alimentar, onde um organismo serve de alimento para outros. Neste mês, a leveza de meus pés com os cuidados especiais foi acrescida de um relato emocionante. Alice mora pertinho do mar. Guarauzinho, Baleia, Arpoador, Parnapuã, Brava e Juquiazinho ficam em uma grande área de preservação ambiental da Estação Ecológica Juréia-Itatins. Cercadas por costões, montanhas e Mata Atlântica, estão entre as praias mais preservadas de São Paulo. Contou-me com os olhos brilhantes de emoção: na Jureia, tudo é protegido. Não se pode entrar com carro, moto, nem tomar banho nas águas puras. A lembrança de meu pai foi imediata. Era eu menina quando fomos ao sítio de um parente. Caminhávamos a pé, entre plantações e criações de gado, quando percebi que a terra escura ia sendo coberta por outra mais clara, até pisarmos na brancura imaculada da areia. À beira do mar, nas mãos em concha cheias de água, papai mostrou-me o plâncton, exclamando: filha, isto é sagrado! O plâncton marinho é formado por um conjunto de organismos que sustentam uma cadeia alimentar robusta e responsável, inclusive, por garantir indiretamente a comida em nossa mesa. Alice continua vindo a Santos três vezes na semana para atender sua clientela. Viaja de ônibus cerca de três horas para vir e outras tantas para voltar. Mas não reclama, porque seu olhar inquieto busca a paisagem. Numa das vezes em que o marido veio buscá-la, estavam quase chegando quando Alice grita: “Para, para! Tem um pássaro ferido!” O homem ignora o pedido, mas ela continua: “Volta, faz a curva! Volta e para!” Desta vez ele atende. A esposa pega o filhote recém-nascido, machucado na queda. Lembrando que o vizinho cuida de pássaros feridos, entrega-lhe o pequenino. E no vaivém entre Peruíbe e Santos, o tempo vai passando. Alice, porém, não esquece do filhote e vai até o vizinho, que lhe mostra o pássaro, na verdade uma fêmea, toda emplumada! É a mesma ave?! – pergunta, espantada. Era um bicho pelado... Qual a espécie? O benfeitor responde: Não sei. Mas já foi batizada. Seu nome é Alice! – e pousa a ave na mão da mulher, que acaricia a plumagem brilhante e colorida. Sem conseguir disfarçar a lágrima, agradece e, erguendo o braço, solta Alice, que voa alto... A outra Alice volta para casa. Precisa alimentar o cão e preparar o jantar. Amanhã será outro dia. Tomara que julho chegue logo para estar com Alice, que cuida dos pés… e da nossa alma, também. *Regina Alonso. Escritora