A indústria brasileira de apostas passou anos ouvindo que precisava de regulação. O setor pediu regras, fiscalização, rastreabilidade e segurança jurídica. O Brasil respondeu: regulamentou, tributou, exigiu biometria facial, geolocalização, compliance e monitoramento financeiro. Agora, poucos meses depois de estruturar oficialmente o mercado, o país começa a discutir como restringir publicidade, limitar patrocínios e endurecer ainda mais o ambiente para as operações legais. O ano de 2026 promete ser o mais contraditório da história das bets no Brasil. A combinação é explosiva: Copa do Mundo, eleição presidencial, pressão política, arrecadação bilionária e crescimento das plataformas ilegais. Em ano eleitoral, ninguém quer parecer “pró-bets”. O resultado disso já aparece no Congresso, com projetos que restringem campanhas publicitárias, influenciadores e exposição das marcas no esporte. O problema é que o setor deixou de ser apenas entretenimento digital. Hoje, clubes, campeonatos, emissoras, agências e plataformas esportivas dependem financeiramente desse mercado. O futebol brasileiro criou uma relação profunda com as apostas e, agora, começa a discutir publicamente se quer continuar convivendo com elas. Enquanto isso, operadores ilegais seguem atuando sem imposto, sem biometria, sem controle de identidade e sem qualquer obrigação regulatória. O operador legal vive um cenário quase surreal: precisa cumprir exigências cada vez mais complexas enquanto compete com plataformas clandestinas acessíveis em poucos cliques. A grande discussão de 2026 talvez não seja mais “regular ou não regular”. A pergunta agora é outra: o mercado regulado brasileiro será economicamente sustentável? Existe uma diferença enorme entre criar um mercado regulado e criar um mercado competitivo. Hoje, as operações licenciadas enfrentam aumento de tributação, custos operacionais elevados, pressão reputacional e possíveis restrições de marketing. A Copa do Mundo de 2026 ainda adiciona um novo componente. É a primeira totalmente inserida dentro do mercado regulado brasileiro. A era do apostador anônimo acabou. Agora existem biometria facial, rastreamento transacional, integração bancária e monitoramento fiscal. O Brasil finalmente criou mecanismos reais de controle sobre as apostas on-line. Mas, justamente quando o setor entra em sua fase mais profissional, começa a enfrentar um ambiente político que trata o mercado regulado como se ainda estivesse no passado clandestino. *Andréia Oliveira. Diretora de operações da Betsul