(Adobe Stock) Durante décadas Hollywood imaginou máquinas capazes de quebrar qualquer criptografia. Parecia fantasia. Afinal, bancos, governos e sistemas militares sempre confiaram na ideia de que a criptografia moderna seria praticamente inviolável. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Recentemente chamou atenção o Mythos, sistema de inteligência artificial desenvolvido pela Anthropic para defesa cibernética. Oficialmente, sua função seria encontrar vulnerabilidades antes que criminosos as descubram. Mas existe uma pergunta inevitável: se uma IA consegue defender sistemas complexos, também consegue atacá-los de forma extremamente eficiente. O ponto mais preocupante é que a inteligência artificial talvez nem precise “quebrar” matematicamente uma criptografia para produzir o mesmo efeito prático. Basta localizar falhas humanas, erros de implementação, vulnerabilidades esquecidas ou combinações improváveis de pequenos defeitos espalhados por milhões de linhas de código. Nenhum software do planeta foi criado imaginando uma inteligência capaz de testar possibilidades em velocidade muito superior à capacidade humana de reação. Hoje praticamente tudo depende de sistemas digitais. Bancos, bolsas de valores, aeroportos, portos, hospitais, energia, telecomunicações e logística operam apoiados sobre uma camada invisível de software que nem seus criadores compreendem integralmente. Agora imagine uma IA treinada exatamente para encontrar aquilo que os próprios engenheiros não conseguem enxergar. Não é difícil entender por que certas empresas começam a tratar algumas inteligências artificiais quase como material nuclear. Existe ainda um detalhe inquietante. Toda IA defensiva carrega dentro de si uma IA ofensiva potencial. A ferramenta capaz de encontrar vulnerabilidades antes de um criminoso é essencialmente a mesma capaz de explorá-las antes que qualquer defesa humana seja preparada. O sistema bancário talvez seja apenas a face mais visível desse medo. O dinheiro moderno já não existe fisicamente na maior parte do tempo. Ele é informação. E bancos vivem de confiança. Talvez a verdadeira corrida armamentista do século 21 não esteja acontecendo apenas com mísseis, chips ou computação quântica. Talvez ela já esteja ocorrendo silenciosamente dentro de laboratórios privados de inteligência artificial. O Mythos parece ser o primeiro exemplo conhecido de IA a ser restrita. Mas será mesmo que isso é possível? Ainda teremos muito a descobrir sobre como a IA vai mudar nossas vidas. Sempre esperamos que para melhor, ao contrário do que previu Hollywood. Valter Branco. Engenheiro, consultor, pós-graduado em Comércio Exterior e Finanças Internacionais com atuação em Navegação e Logística Multimodal.