(Rede Globo/Divulgação) “Que sorte têm os atores! Cabe a eles escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou regozijar-se, rir ou derramar lágrimas”. A frase do dramaturgo Oscar Wilde cai como luva para o ator santense Nuno Leal Maia. Apesar da jovialidade constante, não transparecendo ter formação acadêmica de interpretação pela ECA, soma rara capacidade de agregar intuição na composição de tipos quanto adaptação ao encarnar personas as mais variadas. À parte sua longa visibilidade televisiva, para mim o que conta é a raiz no teatro, o eterno teatro, real fonte e expressão do que seja atuar, tornar-se ator na sua integralidade. Advindo da gloriosa geração de 68 com “Hair”, vivenciando o trágico ou o hilário em clássicos como “Pano de Boca” de Fauzi Arap ou “Greta Garbo”, quem diria, acabou no Irajá de Fernando Mello. Nuno sempre foi mais escolhido para os papéis que os escolheu. Presença de palco quase inata, naturalidade sem excesso de confiança, um ator artesão. Interessante que em “Gabriela”, de Bruno Barreto, ele atua num mesmo filme com Mastroianni da mesma escola de atores intuitivos, gozozos no desdobrar matizes de papéis vivificados. Parece sempre se divertir atuando. Por que não é propriamente um ‘papel’ que se assume, mas uma vida que quase mediunicamente assoma. O ator como o poeta é ‘outro’ ou outros, como diz Rimbaud. Atuar é loucura consentida. O que encanta a nós da terra é quanto Nuno evoca as raízes santenses! Menino de praia, despachante aduaneiro, jogador de bola, técnico de futebol! Santista apaixonado pelo Peixe, Nuno é o mais santense dos atores brasileiros com toda carga dionisíaca e caiçara. Acima das vaidades típicas do estrelato sempre um agregador. Até na onipresente pornochanchada dos anos 70 se tornou cult. Conterrâneo de Plínio Marcos, foi dos mais rodriguianos astros nacionais, talvez por essa sua brasilidade exalada alternando afã e leveza na medida tropical. Dirigido por mestres como Neville D´Almeida, Fábio Barreto, Eduardo Escorel e Babenco, contribuiu muito para a sétima arte tão sacrificada por escassez de políticas publicas consistentes. É preciso sempre rastrear trajetórias artísticas que vÊm de longe: o artista que começou no teatrão dos anos de chumbo e se reinventa agora em tempos de streaming. Santos celeiro de talentos tem em Nuno seu maior representante a motivar novas gerações. Salve Nuno! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas