[[legacy_image_296187]] As tiranias parecem ter como ritual de iniciação a supressão de poetas e pensadores. Elas nutrem ódio por essência aos artistas, aos criadores. O fascismo italiano começa com a eliminação de Gramsci, um genial decodificador do nosso tempo. Franco chega ao poder com as mãos manchadas do sangue de Lorca e Pinochet, infame assassino, golpeou a democracia chilena sob a sombra da suspeita morte de Pablo Neruda. Neruda esteve em Santos em 1927, impressionado com a beleza de nossa terra. Passaria pelo porto mítico em 1939, a bordo do navio Winnipeg, onde levava resgatados 2 mil combatentes foragidos do franquismo ao exílio salvador no Chile, numa missão humanitária sem precedentes. Em 1945, voltaria à Santos senador e poeta laureado para um lauto almoço no Parque Balneário, com direito a uma entrevista e sarau na Rádio Atlântica, a caminho do grande comício de saudação ao recém-libertado herói Luis Carlos Prestes no Estádio do Pacaembu. Subiria a Serra de trem ladeado por um jovem musico pianista escalado pelo Partidão para ciceroneá-lo: o futuro compositor Gilberto Mendes. Foi em 1967 que o bardo consagrado eternizou em definitivo Santos em poema, porque nosso destino em quase meio milênio é cativar a lembrança de quem por aqui passa, de Hans Staden a Neruda. Sem desculpa em tempos internéticos, vocês podem ler na integra Santos Revisitado com boas traduções. Neruda descreve com poderosas metáforas a entrada da barra, a luta dos trabalhadores portuários, guindastes e sacarias, fala dos espigões da orla e exalta um super-herói, Pelé! "Santos, oh desonra do olvido, oh paciência do tempo". Não é pouca coisa ser cenário privilegiado para constar numa antologia de poemas do mais popular artista do verso do planeta então. Cinquenta anos depois de sua partida, Neruda é redescoberto por novas gerações e inclusive questionado em pontos polêmicos de sua controversa biografia, mas segue lembrado. Ao execrável ditador chileno, coube o opróbio e o esquecimento. O poeta é atemporal. Muito além de vaidades e ambições, tem um pacto com o infinito. Como diz Neruda, "não buscamos o mistério, somos o mistério". Desse habitante da ilha por ti cantada, saúdo-te Pablo Neruda! Não pensem que esqueço a supressão de colegas de ofício das letras sob o Gulag stalinista. Acredito no convívio do sonho socialista com uma democracia plena, assim como pregado por Salvador Allende. Pablo Neruda foi um dos mais influentes escritores do século 20, prêmio Nobel de Literatura, militante comunista, acima de tudo poeta da terra, dos aromas da terra, das fragrâncias do amor e do solo fértil ao lirismo de encontro ao mar. Possuía uma poética naturalmente fluída pela verve do hedonista arrebatado que visitou quatro cantos do mundo sem nunca abdicar da paixão original pelo Pacífico da infância entre a Cordilheira dos Andes, os ardores do Atacama e as geleiras polares poeticamente cantadas como quem devora paisagens com detalhe de artesão. Suas memórias têm como título o primor invejado por todos que escrevem como fé e missão: Confesso que Vivi. Existe mais linda nomeação para reminiscências que esta declaração de amor à vida, nobre leitor?