(gerada por IA) Imaginem um fotógrafo francês de 27 anos descer a Serra do Mar em 1937, chegar na praia do Canto do Forte, em Praia Grande, e se deparar com bois, carroças, pescadores, barcos e redes? Tristemente tropical foi a visita do jovem antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss (1908-2009), em Praia Grande no fim dos anos 30. De segunda a sexta, lecionava em São Paulo para levantar a recém Faculdade de Filosofia da USP, o maior trunfo intelectual paulista da época. Todos da missão francesa viam de liceus provincianos e foram largados numa capital efervescente, “embora em São Paulo a altitude livrasse o clima do abafado calor tropical”, havia o desejo de ir à praia, refúgio do dia a dia estressante. Porém o Lévi-Strauss que experimentará a descida ao litoral será o fotógrafo e não o antropólogo. Tais fotografias estão organizadas no livro “Saudades de São Paulo” (1996, Cia das Letras) e contém todos os negativos preservados por ele, publicados 50 anos depois, com um prefácio memorialístico escrito pelo antropólogo lembrando as impressões de fotógrafo. Lévi-Strauss sacou de saída que o sentimento de saudade e sua intraduzibilidade era um traço do páthos brasileiro. Diferentemente dos missionários do 15, dos viajantes como Staden em Bertioga no 16, Nassau no Pernambuco do 17 e Debret no Rio do 19 que vieram deslumbrados pela beleza exótica de Pindorama, o fotógrafo registrava suas impressões com um olhar frio, pessimista e anti-colonial. Acontece que o litoral paulista era por si uma abertura ao mundo, acachapante, abafado, assolado pelo progresso, trágico. O velho e o novo mundo contrastavam, era boi com carroça enquanto um bonde ou um Ford model A passava na avenida, isto intrigava o fotógrafo. Já não eram anotações de uma viagem para a corte sobre a escravidão ou plantas, mas sim uma imersão numa Pauliceia livre, moderna, com cores, valores e práticas já estabelecidas. Estar na praia com Lévi-Strauss é perceber as multiespécies de um território ambíguo como o nosso litoral paulista, a mistura das formas de trabalho no contraste da aceleração. Se na praia antes havia bois e peixes, hoje há homem-aranhas vendendo algodão doce. Os círculos que delimitam a nossa zona tórrida (tropos) sempre foram tristes, desde que chegou José Anchieta. Eles retornam em torno de si mesmo pela violência e pobreza da nossa Baixada, às escondendo atrás de muretas e jardins. Se Lévi-Strauss voltasse em 2037 na Praiceia, talvez pensasse: infelizmente, liberais. Este texto pertence à série “Margens” cujos pequenos ensaios buscam resgatar o legado de grandes artistas do século 20 que passaram ou nasceram na Baixada Santista e foram esquecidos. *Douglas Gadelha Sá. Professor de Filosofia, cineasta e ensaísta cubatense