Estamos perdendo nossa capacidade de comunicação enquanto espécie. Assustadoramente. Não estamos? Pergunto a você para me certificar de que não sou a única a ter essa impressão. Na verdade sei que não sou. Converso frequentemente com outros professores, e sentimos que nossos alunos nos chegam nos últimos três anos bem menos preparados para a socialização e a apresentação pública de ideias e projetos do que há dez anos. São os impactos da pandemia, quando muitos se viram privados do contato socioafetivo justamente na adolescência. Ou apontamos o exagero de telas como o vilão nesse alheamento que prejudica a percepção imediata de quem está à nossa frente querendo trocar ideia. Nessa linha, lembro de uma amiga que fiz logo que me mudei para Santos há mais de uma década, que brincou com a ideia de que os alunos devem certamente morrer de vontade de escrolar os professores como se fosse no smartphone, caso o conteúdo os desinteresse ou dure mais que dez minutos de aula. Isso se repete em qualquer idade e contexto, não só nas escolas. Profissionais da área editorial me avisaram recentemente que não posso telefonar para discutir o processo de diagramação e criação de capa do meu próprio livro: “Vanina, tudo por e-mail, ok?” Por e-mail? Então é por escrito que tenho de explicar sobre o que gosto e não gosto, aceito e não aceito, vendo e não vendo, em mensagens em tempo não real? Se a conversa telefônica não existe mais para fins comerciais, que dirá emocionais… recorde quantos contatos em seu celular alertam “só chamadas urgentes” ou “não atendo ligações”. Sendo assim, gravamos um áudio, quando temos de orientar sobre algo complexo ou caprichar numa mensagem de felicitação. Só que apertamos o botão já nos culpando por abusar da boa vontade do ouvinte e nos sentindo arrependidos porque nossos minutos, após ouvidos (se ouvidos), receberão um simples like. Só nos resta escrever. Visto que quase ninguém prefere ouvir a voz do interlocutor, redigimos míseras linhas. Qual o destino? As respostas demoram igualzinho ao tempo das cartas manuscritas, encurtam-se igualzinho aos tempos dos telegramas e vêm cifradas igualzinho aos tempos da escrita consonantal. Fato é que abandonamos a prática de cumprimentar cordialmente, acenar com ênfase, olhar diretamente nos olhos de quem está perto ou nos aproximar para pedir ou elogiar ou reclamar ou seduzir ou o que mais quer que faça parte da evolução humana. E, se tentamos, é sempre com bloqueios e atrapalhações. Acho isso o pior: deduzir, devido a epidemias, redes sociais de trilionários, traumas, diagnósticos, ondas de violência e maus exemplos de autoridade, que pessoas são uma ameaça ou um tédio. Estamos perdendo nossa capacidade de viver. Assustadoramente. Vanina Carrara Sigrist - Professora universitária e escritora