Foto ilustrativa (Vanessa Rodrigues/AT) “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Antoine Lavoisier Em Santos, seguindo os canais veem-se muretas que, por sua bela simplicidade, tornaram-se um dos símbolos da cidade. Compõem-se de círculos inscritos num quadrado, formando uma série que a todos agrada. O uso de muretas foi adotado primeiramente na Ponta da Praia, constando de quatro ovais inscritos num retângulo, documentado num postal da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams), em foto de Tadeu Nascimento. Começou a ser adotada nos lados dos canais e das pontes na década de 1970 ou 1980. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O desenho da mureta alcançou prestígio, sendo usado em calçadas, rodapés, roupas, móveis, sacolas, souvenirs, anúncios, canecas, sacadas, joias, barras de chocolate e tatuagens. Mas quem desenhou esse símbolo da cidade? Indagado a respeito, Aníbal Martins Clemente, presidente da Prodesan (1987), informou que o autor dos croquis foi Carlos Lang, arquiteto da Prefeitura. A indicação da autoria foi publicada em A Tribuna 30 de abril de 2017, em texto de Sergio Willians, após verificação no arquivo da Prefeitura. O interesse por esse ícone artístico de Santos nos levou a outra questão: qual a inspiração de Carlos Lang? Em documentário no canal History, encontrei da época do Império Romano, num subterrâneo de Roma, uma série de desenhos de dois círculos concêntricos, separados por um retângulo vertical e um espaço entre cada círculo. É uma faixa decorativa, acima de uma sala circular de um edifício residencial próximo ao Coliseu. Em uma mansão, aproximadamente de 50 a.C., foi construída uma fonte chamada Ninfeu, tendo no centro dois círculos concêntricos, nas paredes nichos em volta com estátuas de divindades e, no alto, outros círculos concêntricos. Em Roma, esses motivos também foram encontrados pintados em cemitérios subterrâneos. Pelo visto, o círculo concêntrico era um motivo recorrente em Roma. O desenho do duplo círculo é encontrado nos cemitérios judaicos, nas catacumbas subterrâneas na época do Império Romano. Esse desenho na Antiguidade significava água, essencial para a vida, e uma homenagem às Náiades – semideusas protetoras dos mananciais e fontes. O círculo é um emblema solar, ligado à perfeição. Todo centro é símbolo de eternidade e da totalidade. O símbolo do céu é um círculo. A luz na simbologia católica é sinônimo da vida de Deus. A palavra sânscrita mandala significa círculo e tem representação na tradição hinduísta, como símbolo da presença divina, no centro do mundo. Mandala foi utilizada pelo psicólogo C. J. Jung (2002) para designar uma representação simbólica da psiquê humana. Se Lang se inspirou nesse desenho antigo, ficaria estabelecida uma conexão entre a Santos atual e a Roma Antiga. A semelhança é inegável. As faixas com círculos inscritos nos quadrados aparecem no Casarão Branco (sede da Pinacoteca Benedicto Calixto) desde 1921. A mureta da Ponta da Praia, após aterro feito para a construção da Avenida Saldanha da Gama, é de 1945. Inspirada em Lavoisier, não só a natureza, mas também o homem nada cria, nada perde, tudo transforma. Em Santos, a mureta é nossa bela herança da Antiguidade!