Mário Vargas Llosa, famoso escritor nascido no Peru, é protagonista desta história (TV Cultura/Divulgação/Arquivo) Augusto Montesinos foi um ótimo correspondente da revista Veja. Suas informações a respeito do Peru e dos países vizinhos eram preciosas. O mesmo julgamento valia também para as análises, a parte mais nobre da cobertura diplomática. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas o que Montesinos gostava mesmo era de receber jornalistas brasileiros e ajudá-los em suas missões profissionais. Em Lima, todos o viam como uma pessoa bem querida. E muito respeitada profissionalmente. Tinha excelentes fontes de informação. Abria portas importantes nas áreas de política, economia, diplomacia, literatura e arte. Vivi essa agradável e útil experiência quando cheguei a Lima na década de 1970. Simpático, falante, inteligente, Montesinos logo me cobriu de gentilezas. A rigor, só manifestou uma discordância: o hotel norte-americano de cinco estrelas onde me hospedei. “Carlos, você poderia ter escolhido um hotel peruano senhorial onde, entre outras vantagens, conheceria melhor as delícias da ótima culinária local”. Expliquei que a escolha não fora minha, mas do jornal O Estado de S. Paulo. Com isso fui perdoado Montesinos me ajudou bastante na cobertura de várias pendências entre Peru e Chile. E me apresentou a Mário Vargas Llosa, o que resultou em uma excelente entrevista. Além disso, o escritor peruano me presenteou com um livro de sua autoria e uma dedicatória exuberante. Na corrida de táxi para a casa de Vargas Llosa, meu colega boliviano contou, às gargalhadas, um fato pitoresco. Me disse que sua mulher era muito bonita e, por isso, a mantinha a salvo das possíveis investidas do grande escritor. Nas vezes em que o novelista vinha da Europa, para abeberar-se em suas raízes, Montesinos me relatou o que fazia com sua esposa: “Eu a mantinha, na prática, em cárcere privado, deixando-a trancada em casa. Eu a transformava em verdadeira mulher secreta”.Tentando explicar melhor o episódio, confessou: “Mário é muito bonito e um incorrigível mulherengo. As mulheres, de modo geral, não conseguem resistir aos seus encantos. Ele é o que, em espanhol, chamamos de “parlanchin zalamero”. Ou seja, alguém que fala muito e bem. E que, ao falar, não para de seduzir o interlocutor. Ou, no caso, a interlocutora. O que faço é preservar minha mulher das suas supostas iniciativas maliciosas”.Na véspera de voltar ao Brasil, em um gesto de gentileza e gratidão, convidei Montesinos e esposa para um jantar de despedida. Sorrindo, ele disse: “Você não imagina quantas vezes o Mário fez convites semelhantes. Aceitos por mim, mas sempre sem a companhia da minha esposa”.Piscando o olho, acrescentou: “Com você, Carlos, é diferente. Primeiro que você não é bonito como o Mário. E em segundo lugar porque percebi logo que possui um rígido código de ética e lealdade. Jamais se insinuaria para a mulher de um amigo”. Não preciso dizer que durante toda a refeição me comportei com a castidade de uma freira.