(AdobeStock) Homenagem não é sinônimo de transformação. É bom desconfiar de datas festivas que, às vezes, servem para encobrir realidades nefastas. A luta é longa e as flores e discursos não podem contribuir para encurtar memórias. Chega março e o mundo parece aprender, por um dia, a pronunciar a palavra ‘mulher’ com solenidade. Há flores, mensagens, discursos bem-intencionados. A data se ilumina como vitrine: tudo arrumado, perfumado, visível. Mas a vida – essa que não cabe em calendários – continua acontecendo nos bastidores. Entre discurso e prática há um descompasso, revertido em desigualdade salarial, sobrecarga individual do cuidado, violência simbólica e concreta, presença feminina sem poder decisório real. Celebra-se a mulher como força, mas ainda se espera que ela seja força silenciosa, a ponto de não incomodar. E, raramente, lhe perguntam se gostaria, por uma vez, de não precisar ser forte, desde os primeiros raios do dia até a noite nas suas tarefas duplas e até triplas. O Dia da Mulher - algo de curioso nessa celebração: louva-se a resistência feminina como se ela fosse virtude natural, quando muitas vezes é apenas necessidade. Como se resistir fosse destino e não circunstância. Como se sobreviver fosse a forma mais alta de reconhecimento. O mundo, da forma como foi idealizado, tem uma estrutura masculina de poder e, desde a sua concepção, tem nos mostrado que a civilização, que se esperava mais evoluída, ainda está próxima da barbárie, pela quantidade de agressões à mulher, chegando a números incalculáveis de feminicídios. Ainda assim, não convém desprezar o dia. Datas são como marcos na estrada – não são o caminho, mas ajudam a lembrar que existe um percurso. Um tempo de lutas e de conquistas, mas nem sempre reconhecidas, e quando esperam por uma perfeição fora do normal, pois somente assim poderão avalizar e lhe dar méritos. O que se deseja não é um dia de exaltação, mas uma convivência, em que o respeito não precise ser lembrado – apenas vivido. Talvez o gesto mais honesto seja trocar o símbolo pela escuta. Menos discursos sobre mulheres, mais atenção às suas vozes. Menos admiração distante, mais transformação próxima. O que se espera é um horizonte feminino mais lívido, e que haja reflexão sobre seu papel de sal da terra, de mãe da natureza e de gestora da humanidade. Porque a verdadeira homenagem não floresce em um único dia. Ela cria raízes. E raízes trabalham em silêncio – mas são elas que sustentam o mundo. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora