Outro dia recebi um trecho de um antigo desenho animado dos Jetsons. Os mais jovens talvez nem saibam de quem se trata, mas quem já passou dos 50 certamente reconhece aquela família criada nos anos 60 do século passado, mas que vive nos anos 60 do século 21. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Muita coisa que parecia pura fantasia acabou mesmo saindo da tela. Videochamadas, automação doméstica e uma rotina cada vez mais dependente de tecnologia. Mas existe uma modernidade que nem os roteiristas dos Jetsons conseguiram prever: os algoritmos que hoje parecem saber mais sobre nós do que nós mesmos. E não, isso não significa necessariamente que o Google esteja escondido atrás da cortina ouvindo suas conversas como um vilão de filme de espionagem. Essa teoria rende boas discussões, mas encontra obstáculos técnicos, jurídicos e financeiros consideráveis. Há leis de proteção de dados em diversos países, auditorias independentes e uma comunidade de especialistas em segurança digital que monitora constantemente o funcionamento das plataformas. Até hoje, não surgiram evidências robustas de um sistema de escuta em massa operando de forma clandestina. A explicação é menos cinematográfica e, talvez por isso mesmo, mais impressionante. As plataformas podem não precisar ouvir o que você fala porque aprenderam a interpretar, com notável precisão, o que você faz. Cada curtida, pesquisa ou breve pausa diante de um vídeo ajuda a alimentar um retrato digital do seu comportamento. É estatística aplicada ao cotidiano com uma eficiência que faria inveja às antigas cartomantes. Nesse permanente troca-troca de dados entre pesquisas, redes sociais e hábitos de navegação, tudo vira pista. Se você reduz a velocidade da rolagem diante de uma propaganda de geladeira, o algoritmo entende aquilo como interesse potencial. Se pessoas próximas pesquisam o mesmo assunto, o sistema conclui que talvez exista ali um interesse compartilhado. Se o algoritmo identifica que você se comporta de maneira parecida com outras milhares de pessoas, e parte desse grupo passa a demonstrar interesse por um livro ou uma viagem, ele supõe que você poderá seguir pelo mesmo caminho. E, muitas vezes, acerta. É por isso que, de repente, surge na sua tela exatamente aquilo em que você jurava apenas ter “pensado”. Não é telepatia. Não é espionagem doméstica. É apenas um sistema matemático extremamente eficiente cruzando hábitos e probabilidades. Os Jetsons imaginavam carros voadores. Nós acabamos ganhando algo talvez mais surpreendente: geladeiras aparecendo no celular antes mesmo de percebermos que a nossa está com um barulho estranho.