(Alexsander Ferraz/AT) A relação entre teatro e cidade, pertencimento milenar, é um fenômeno cultural dos mais orgânicos na dinâmica urbana. É na trama das cidades que se manifestam representações da vida em sociedade, do lampejo das ideias aos gestos do cotidiano em comum. É na cidade que estão os espaços cênicos, os teatros edificados e as praças. Por isso, podemos dizer que as cidades são vivamente teatrais. Reforçando essa vocação, nesse mês, Santos pertence especialmente ao teatro: o Sesc realiza, até domingo, a sétima edição do Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, ocupando cerca de 20 equipamentos culturais, com a presença de 400 artistas e a expectativa de atendimento de um público acima de 90 mil pessoas. Santos é a sede do festival desde a primeira edição, em 2010, resultado da parceria com a Prefeitura e com instituições nacionais e internacionais. As prefeituras de Cubatão e São Vicente são igualmente parceiras, ampliando o roteiro do festival para outros espaços públicos. Cooperações que espelham uma relação dialógica permanente, uma vez que o Sesc apoia importantes eventos culturais da região, como o Festival Santista de Teatro (Festa) e o Festival de Cenas Teatrais (Fescete). Dessa forma, o Sesc põe em prática sua diretriz institucional de cooperação com diversos agentes estrangeiros, mobilizando a diplomacia cultural como estratégia, o que possibilita o desenvolvimento de ações conjuntas e o fortalecimento das respectivas missões institucionais. O Mirada foi criado sob inspiração do Festival Iberoamericano de Teatro de Cádiz (FIT de Cádiz), cidade ao sul da Espanha banhada pelo Atlântico e que também se distingue pela atividade portuária. O intercâmbio, portanto, está na essência desses festivais, do mesmo modo que o viés curatorial de olhar para outros mapas das artes cênicas. No caso do Mirada, a cada edição bienal se destaca a produção de um dos países convidados. Já foram homenageados, nesta ordem, Argentina, México, Chile, Espanha, Colômbia e Portugal - este ano o contemplado é o Peru, país andino com o qual dividimos história e a grandeza do Rio Amazonas. Nesta edição, o público pode conhecer obras de dez países (além dos já citados, incluem-se Bolívia e Uruguai) e de sete estados brasileiros, resultando em mais de 70 sessões de espetáculos, ações formativas e outras atividades. Também serão realizados o encontro de programadores, o Mirada Pro, com a presença de dezenas de profissionais da cena, e a Extensão Mirada, com alguns espetáculos apresentados na cidade de São Paulo. É preciso, ainda, mencionar um espetáculo silencioso e inestimável para a cidade, reiterando nossos valores institucionais de educação, de sustentabilidade e de inovação. Antes, durante e depois do festival, por meio do programa Lixo Menos é Mais, o Sesc aprofunda sua política de gestão e mapeamento de resíduos, buscando minimizar a geração desses materiais - em cenários e figurinos, por exemplo -, garantindo sua destinação correta e reutilizando-os ao máximo em futuras atividades culturais, e em parceria com cooperativas da região. Finalmente, resta-nos convidar o público a participar da programação do festival, deixando-se envolver pela capacidade transformadora dessa arte que atravessa os séculos no corpo e na alma das cidades. *Diretor do Sesc São Paulo