(Imagem Ilustrativa/ Unsplash) Milenar e mítico, o teatro é das manifestações mais poderosas para insistência do humano demasiado humano. Em meio algoritmos, o tsunami de signos ocos, a ausência de substância no excesso de informação, é o teatro como vivificação da poesia que repõem algum poder de reflexão ante tanto niilismo. Teatro catarse, teatro que nos espelha tão desatentos, o teatro catalisador de todas demais formas de expressão artística através de situações e personagens psicologicamente constituídas. O teatro somos nós ao máximo de representação, transcendendo o fugaz e localizado, exponenciando nossos caracteres permanentes e universais. Aprendi mais sobre os sonhos coletivos com Gorki em Pequenos Burgueses que com o velho Marx. Tennessee Wiliams me propiciou mais esclarecimento de pulsões e recalques do que muitos tratados psicanalíticos. Que força em Ariano Suassuna e Jorge Andrade para dissecar a brasilidade no Auto da Compadecida ou nos Ossos do Barão. Diversidade, questões de gênero, lugar de fala, conceitos tão caros na atualidade, eram esteios das obras do nosso Plínio Marcos, que bem precisa ser revisitado em seus 90 anos. Se numa remota constelação depois do ocaso do Sol e nossa extinção planetária alguém tentar abduzir o que fomos em glória e miséria, Hamlet condensaria primorosamente nossa passagem na Terra. Eis que o Mirada toma as ruas de Santos, mobiliza atores, técnicos, espectadores com a programação nas mãos num périplo feérico entre mais de trinta espetáculos, performances, oficinas tendo o Peru tão literário como país homenageado. O sétimo Mirada já consolida uma tradição numa cidade com vasto histórico teatral desde o século 19, e se formos mais longe foi com Anchieta nesta costa que o teatro surge como catequização. Ainda me recordo do primeiro Mirada, criado pelo imenso Danilo Santos Miranda, em parceria com a cidade de Cádiz, vendo em Santos outro porto doutra margem atlântica sede do festival. Fazer justiça ao empenho ao ex-secretário Carlos Pinto é preciso. Sesc, Santos e governos ibero-americanos, numa triangulação hercúlea de produção, resgataram à terra de Pagu e Plínio o apogeu da dramaturgia internacional. Não me canso de matutar como seria a Cultura nacional sem o Sesc. Esta edição aprofunda questionamentos sobre crueldade coloniais, a urgência ambiental por nossa Amazônia comum, migrações e refugiados numa abordagem decolonial pertinente para superação de todas opressões. Na preciosa curadoria percebem-se ecos da poética de César Vallejo, representante da vanguarda latino-americana que defendia a literatura propulsora como maior da revolução. “Saber é tornar-se livre”, dizia Vallejo, concebendo saber como resignificação, rebeldia contra a mediocridade, saber construção de propósitos elevados de justiça social. Só a arte subverte a lógica do consumo, a lógica do capital valor absoluto, o primado da segregação por cor, desejo, condição social. Dos sons da floresta saúdo o Mirada com a fala de Krenak: “A vida é fruição, é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária”. Salve, Sesc! Salve sempre conosco o Mirada. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor e membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande