Participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi uma experiência memorável. No ano passado, estive lá como leitor. Voltar agora como autor, para lançar meu livro Minha Biblioteca Sou Eu, representou uma realização pessoal. Meu livro saiu pela Editora Patuá, e isso me deu uma credencial que talvez eu ainda procurasse. A caminhada foi longa: muita leitura, muito estudo — sim, escrever também exige o aprendizado de técnicas; Aristóteles já tratava disso em sua Poética, há cerca de 2.300 anos. E muita escrita, muito papel rasgado. Em Paraty, a caminhada também foi longa. E, literalmente, dura. A Casa Gueto, sede da Editora Patuá, ficava no outro extremo da cidade, a 1,5 km do ponto mais próximo em que o carro poderia nos deixar. Teríamos de seguir a pé. O que são 1,5 km para quem, 40 anos atrás, participou de corridas de dez quilômetros? Moleza, pensei. Não foi. As ruas de Paraty são revestidas por grandes pedras irregulares, de formas e tamanhos variados. Enquanto caminhava, pensei que aquele calçamento só poderia ter sido projetado por alguém que jamais precisaria pisar nele. As senhoras ricas, autoridades, magistrados, padres e outros escravocratas utilizavam as chamadas cadeirinhas de arruar, carregadas por dois homens escravizados e descalços. Essas cadeirinhas eram protegidas por cortinas ou portinholas. Só gente fina. Enquanto isso, mercadorias sacolejavam em carroças por aquelas mesmas pedras. Se fossem cristais, provavelmente chegariam ao destino prontos para ser vendidos como vidro moído. Vejam como foi difícil minha caminhada como escritor. Ano após ano escrevendo para, no momento da consagração, terminar com dores musculares. Como leitor, minha experiência foi socrática: andei muito para ver tudo aquilo que não precisava comprar; não ali. Com os preços estratosféricos, fui obrigado a pagar preço de hotel de luxo por uma simples pousada. E os autores famosos... Ah, esses eram tratados como estrelas pop, com direito a dezenas de selfies e toda sorte de tietagem. Os escritores, tal como os magistrados, deveriam falar somente nos autos, ou seja, em seus livros, pensei. Está bem. Não sejamos radicais. Adorei dar autógrafos. Não foram muitos, é verdade, nem se formou fila. Mas cada um nasceu de um encontro sincero. Um dia chegarei lá, pedra a pedra, pelas ruas de Paraty. Marcio Aurelio Soares - Médico e escritor