(Pixabay) Caio Fernando de Abreu, escritor gaúcho, jornalista, dramaturgo e tradutor viveu em ‘seu mundinho’. Venceu três prêmios Jabuti. Nos anos 90 revelou ter contraído o vírus HIV e sua trajetória foi marcada pela representatividade, pois era abertamente gay. Durante a Ditadura Militar no Brasil, perseguido pelo Dops, teve que se mudar para Campinas. Na década de 1970, morou na Inglaterra e na França. Viveu de 1948-1996. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos seus últimos anos, morou com os pais na capital gaúcha. A família encontrou em 2023 um poema inédito de Caio, em Gramado. No meio do silêncio e do verde, a presença de Deus fica mais clara. Essa luz ilumina os porões da mente, desfaz o mofo, espanta os fantasmas. Com cuidado, chamo a isso de 'felicidade': Ela pousa, muito leve, no telhado desta casa. Uma homenagem ao sítio onde se hospedou em 1989, quando morava em São Paulo e veio ao Festival de Cinema. A família sabia da existência dos versos, mas só os encontrou naquele ano. O próprio Caio revelou: Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho, cheio de surpresas. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias. Caio diz o que pensa de forma clara. ‘Meu mundinho’ é diverso, mas só cabem as pessoas necessárias. Hoje, o disfarce parece fazer parte natural do homem. Porém, as máscaras não escondem a verdade. A Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães promoveu homenagem a Caio Fernando de Abreu, em memória dos 30 anos de sua morte, 25-02-26. A diretora da biblioteca destaca que ele marcou sua geração ao abordar temas como sexo, medo, morte e solidão. Deixou este plano terrestre, mas sua obra é atemporal. Na vitrine temática o destaque para Morangos Mofados, onde, apesar da tentativa de olhar com certo distanciamento histórico-existencial a viagem do desbunde, Caio revela enorme perplexidade diante da falência de um sonho e da certeza de que é fundamental encontrar uma saída capaz de absorver, agora sem a antiga fé, a riqueza de toda essa experiência. Mansamente, próximo e distante, Caio define gestos, falas e sentimentos que, aos pedaços, começam a traçar o painel de um momento da história de uma geração. Pequenas provas de evidência onde, os Morangos de Caio com uma irresistível atualidade, modificam caminhos percorridos e pontuam a história que se consome no que se interrompe. Caio fala da crise da contracultura como projeto existencial e político. Do resgate sofrido pela utopia de um mundo alternativo centrado na recusa selvagem da racionalidade e resgatado pelos princípios do prazer e pela realidade espontânea do aqui e agora. A viagem da contracultura é refeita e checada em seu ponto nevrálgico: a questão da eficácia do seu “sonho-projeto”. Alguma coisa explodiu, partida em cacos. Tudo ficou mais complicado. E mais real. Percebe-se certo adeus às fantasias apocalípticas e, sobretudo, a clareza quanto à urgência de um novo projeto (sonho) que inclui um acerto de contas com o real. Impossível não lembrar Ariano Suassuna – O sonho é que leva a gente para frente. E se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado. Regina Alonso. Escritora, membro das academias Santista de Letras; Vicentina de Letras, Artes e Ofícios; Letras, Artes e Ofícios de Praia Grande.