[[legacy_image_292997]] “Amigos como você eu não conto nos dedos de uma das mãos”. Essa foi, com certeza, a maior declaração verbal de afeto que recebi de um amigo. E isso vindo de alguém que não é dado a esse tipo de coisas. Eduardo Sanovicz é muito mais de ação. Com ele não tem essa coisa de blablablá. É um cara que vai e faz, sem alarde. Percebi isso de cara, em 1980, durante a apuração das primeiras eleições para o Centro dos Estudantes de Santos (CES) após a retomada da entidade, solapada pela ditadura militar. Sozinho, cercado de jovens de todas as tendências políticas de então, Edu transcrevia com calma os votos em uma lousa. Sabia que ia vencer, mas queria deixar tudo bem claro a todos. Aquela foi a primeira presidência de muitas na sua vida. Eu, que tinha feito campanha contra ele, percebi naquele momento uma obstinação rara, que o perseguiria por todos os anos seguintes. Durante seu mandato, fez o primeiro Festival Estudantil da Canção de Santos. Foi então que começamos uma longa amizade de quatro décadas, nunca abalada durante um dia sequer. Foram anos difíceis e gloriosos. Vieram os governos populares de Telma de Souza e David Capistrano em Santos. Os de Erundina, Marta Suplicy e Haddad em São Paulo. Vieram também os governos Lula e Dilma. Edu foi secretário de Turismo, presidente do Anhembi e da Embratur, além de vários cargos importantes na iniciativa privada. Em sua despedida do Anhembi, em uma situação de disputa política renhida, alguém teve a ideia de colocar uma urna para que os funcionários depositassem mensagens a ele. Preocupado, sugeri que antes lêssemos todas, para não correr o risco de alguma ofensa ir parar nas mãos dele. Qual nada. Todas, absolutamente todas as mensagens, foram de agradecimento e afeto. Uma colagem com todas elas virou um belo quadro que decora uma das paredes de sua casa. O mesmo aconteceu por todos os lugares onde passou. Assim que eu cheguei em Brasília, em 2003, o Edu me pediu que fosse com ele em uma visita ao prédio da Polícia Federal. Ao chegarmos à porta, estavam lá o diretor geral e vários assessores para nos receber. Ele me abraçou e falou baixinho: “Você imaginaria uma cena dessas há 20 anos?” E assim foi sempre. Endurecia sem deixar o bom humor pra trás. Certa vez, apareceu de surpresa com seus pais na porta de casa durante uma passagem de ano. O pai dele, o conhecido arquiteto Abrahão Sanovicz, e meu pai se olharam e caíram na risada. Os dois eram velhos amigos da Juventude Comunista, na propalada Baixada Vermelha de então, nos idos dos anos 1950. O melhor mesmo do Edu, no entanto, a despeito de toda a sua carreira brilhante como político e executivo, eu guardo aqui comigo. Com ele sempre tive uma vida repartida pari passu, com todas as nossas alegrias, paixões, filhos, conquistas e derrotas, que não foram poucas e também bem doloridas. Entrego aqui, portanto, “as flores em vida”. E desejo de todo o coração que o caro leitor tenha alguém em sua vida que, assim como o Edu para mim, caiba nos dedos da sua mão.